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Decisão nos EUA permite remoção de livros por gestores de bibliotecas

Por Leticia Florenço
04/06/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Biblioteca - Reprodução/Unsplash

Biblioteca - Reprodução/Unsplash

A recente decisão do Tribunal Federal de Recursos da 5ª Região dos Estados Unidos, envolvendo a remoção de 17 livros de uma biblioteca pública no Texas, gerou um intenso debate sobre os limites do controle governamental sobre o acesso à informação.

A controvérsia gira em torno da liberdade de expressão, do papel das bibliotecas públicas e da relação entre o cidadão e o Estado na democratização do conhecimento.

A polêmica começou quando gestores da biblioteca do Condado de Llano retiraram obras consideradas ofensivas por conterem temas raciais, sexuais ou até mesmo por supostas vulgaridades em linguagem infantil.

Frequentadores da biblioteca ingressaram com uma ação alegando violação do direito constitucional à liberdade de expressão, argumentando que a remoção restringia o acesso a ideias e informações diversas.

O Tribunal da 5ª Região decidiu, por maioria, que a liberdade de expressão, nesse contexto, pertence ao governo que administra a biblioteca, e não aos usuários. Assim, a retirada dos livros não violaria direitos constitucionais.

Repercussões constitucionais e a reversão de precedentes

Essa decisão contraria precedentes anteriores que protegiam o direito do público de acessar diversas ideias nas bibliotecas públicas.

A corte revogou julgados antigos que proibiam a remoção de livros com base no desagrado por seu conteúdo, além de ignorar decisões de outras cortes federais que reforçavam o papel das bibliotecas como espaços plurais de informação.

O tribunal considerou que a escolha do acervo é uma expressão do governo, que pode selecionar o conteúdo disponível conforme seus critérios.

Defesa do direito do governo sobre a curadoria do acervo

Os defensores da decisão argumentam que o governo, assim como editores e curadores em outros meios, possui o direito de decidir quais obras integrarão o acervo público. A seleção de livros, segundo essa visão, reflete um direito legítimo à liberdade de expressão do Estado.

Além disso, destacam que o conceito de valor literário e moral evolui com o tempo, e que as bibliotecas devem poder atualizar suas coleções para refletir essas mudanças. A decisão também visa evitar litígios intermináveis que surgiriam caso se tentasse definir critérios objetivos para a remoção de livros.

Preocupações sobre a censura e a restrição ao acesso à informação

Por outro lado, críticos da decisão alertam para o risco de que as bibliotecas públicas se tornem ferramentas de censura e controle ideológico, afastando-se de sua missão original de promover o acesso plural e democrático ao conhecimento.

A exclusão de obras com base em critérios políticos ou morais do governo ameaça a diversidade de opiniões, fundamental para a formação crítica dos cidadãos. O temor remete a práticas autoritárias, como a queima de livros, destacada pelo clássico “Fahrenheit 451”, que ilustra os perigos do controle estatal sobre o acesso à informação.

Voto dissidente e a defesa das bibliotecas como espaços democráticos

O voto dissidente, assinado pelo juiz Stephen Higginson, ressalta a importância histórica das bibliotecas públicas como guardiãs do acesso a uma ampla gama de ideias, essenciais para uma sociedade livre.

Ele enfatiza que a Primeira Emenda da Constituição americana protege o direito do povo de ser informado, e que a remoção motivada por interesses políticos mina a autogovernança e a democracia.

Segundo esse entendimento, o acesso irrestrito a informações diversas é uma condição indispensável para que os cidadãos possam exercer seu papel de agentes políticos críticos e conscientes.

Consequências sociais e futuras implicações

Na prática, a decisão pode fragmentar o acesso à informação, limitando a disponibilidade de livros que tratem de temas sensíveis e deixando os leitores dependentes de meios alternativos, como compras pessoais ou empréstimos informais.

Também pode abrir precedentes para outras regiões adotarem políticas semelhantes, ampliando a censura disfarçada em bibliotecas públicas. O debate sobre o papel das bibliotecas na era digital e sobre como equilibrar a liberdade de expressão com a gestão do acervo público se torna, assim, ainda mais urgente e relevante.

O caso será provavelmente analisado pela Suprema Corte dos EUA, que poderá reafirmar ou corrigir os rumos dessa controvérsia. Enquanto isso, a sociedade civil, educadores e bibliotecários devem refletir sobre o risco de perder espaços públicos de diversidade intelectual para práticas de censura.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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