Quando uma pessoa idosa passa dias sem receber uma visita; passa semanas sem ter uma conversa significativa com alguém ou passa meses sem sentir que sua existência importa para alguém, quem responde por essas faltas? A família? O poder público? A sociedade? Ou ninguém?
Vivemos em cidades cada vez mais conectadas por redes digitais e, ao mesmo tempo, estamos cada vez mais desconectados da presença humana. Não conhecemos e nem desejamos conhecer quem mora sozinho/a na casa ao lado, qual é o nome do nosso/a vizinho/a?
A solidão não é apenas um sentimento particular. Ela revela a forma como organizamos a nossa vida em sociedade. Quando a cidade oferece poucos espaços de convivências, quando as calçadas impedem o caminhar e provocam quedas, quando os equipamentos públicos não promovem pertencimento, a solidão deixa de ser uma questão privada e se transforma em uma questão política. Pública.
Quem responde pela solidão de muitas pessoas idosas? Ao invés dessa pergunta, talvez fosse melhor, perguntar o seguinte: que tipo de cidade nós estamos construindo, quando milhares de pessoas envelhecem sem serem vistas e visitadas? Uma cidade que se proclama, um dia, ser amiga das pessoas idosas, como a nossa, deve cultivar e promover encontros humanos: reconhecer o valor da convivência comunitária. Criar oportunidades para que as diferentes gerações compartilhem seus espaços, histórias e afetos.
A solidão no envelhecimento para muitas pessoas, não se resolve apenas com políticas públicas, embora, elas sejam e são indispensáveis. É preciso que a cidade, que todos nós, caros leitores e leitoras, tenhamos uma ética do cuidado, da vizinhança e de responsabilidade compartilhada. Que nós voltemos a bater às portas, a perguntar como fulano está, a perceber quem desapareceu do “pilates”, do culto, da missa, da feira ou da “pelada” do futebol.
Há sim, uma diferença profunda entre envelhecer e envelhecer sozinho: uma cidade verdadeiramente humana não aquela que é medida somente pela presença de prédios, avenidas e carros. É aquela que é medida, sobretudo, pela forma como trata aqueles e aquelas que já percorreram longos caminhos na vida.
Se a resposta, mesmo que seja dada pelo nosso silêncio, onde ninguém se responsabiliza pela solidão de muitas pessoas idosas, com certeza, posso afirmar, que estamos diante de um comportamento cruel de abandono e indiferença do nosso tempo. O que vem a configurar o que a escritora francesa e grande filósofa Simone de Beauvoir já nos advertia sobre a “conspiração do silêncio”, em sua obra clássica no campo da Geriatria e Gerontologia. “A velhice”. Está na hora de a gente romper com essa realidade. E construirmos uma nova velhice. Digna e cidadã. Vamos em frente!

