Uma ode ao mestre: Nelson Rodrigues vive

Em montagem de ‘A falecida’, Aquele Grupo transformou o teatro em um ensaio sobre a finitude, ecoando as angústias de quem, assim como cantou Raul Seixas, enxerga no fim o verdadeiro segredo desta vida


Por Pedro Moysés

28/05/2026 às 15h14

Há uma poesia amarga na forma como lidamos com a nossa própria finitude. Na sua emblemática canção “Canto para a minha morte”, Raul Seixas refletia sobre a figura surda que caminha ao nosso lado, se questionando em que esquina ela o beijaria. “Será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque? Na música que eu deixei para compor amanhã?”, perguntava o baiano, enumerando as fatalidades mundanas: um acidente de carro, uma ferida mal curada, um escorregão idiota no meio-fio. A morte é uma grande incerteza incontornável.

Na noite da última terça-feira, o palco do Cine-Theatro Central foi tomado por uma mulher que se recusou a ser vítima passiva do acaso. Ao encenar “A falecida”, o Aquele Grupo nos apresentou a uma Zulmira que subverte a angústia cantada por Raul. Diferentemente do eu lírico do roqueiro, a protagonista de Nelson Rodrigues não quer ser surpreendida, sem saber em que esquina será beijada pela morte. Condenada, ela decide coreografar e preparar o próprio fim.

A montagem dirigida por Conrado Braga capturou essa obsessão doentia e fascinante. O espetáculo, uma verdadeira ode a Nelson, trouxe a entrega de um elenco formado por Ágata Avelar, Barbosão, Franklin Ribeiro e Tayane Araujo, que também leu para o público as rubricas do texto original, respeitando e homenageando o autor.

Para além do valor literário, a verdadeira dimensão da obra de Nelson Rodrigues só se cumpre plenamente na fricção viva do palco, diagnóstico defendido com fervor por Sábato Magaldi. O crítico apontava que a dramaturgia rodriguiana não foi feita para o recolhimento passivo da leitura, mas, sim, para o impacto coletivo e visceral do teatro, local em que o inconsciente e as obsessões humanas ganham corpo, voz e, principalmente, espaço.

Sob a ótica de Magaldi, assistir a Nelson no teatro é submeter-se a um espelho implacável que desmascara as aparências sociais e nos confronta com a “verdade essencial” dos nossos impulsos mais ocultos. Na presença física, característica essencial do teatro, e no testemunho compartilhado da plateia que o texto deixa de ser um documento histórico e se transporta do papel à carne, como uma força ritualística ativa, capaz de provocar a verdadeira catarse e purgar as tantas hipocrisias que ainda insistimos em carregar.

Palco aberto: Cenas Curtas da APAC

Atenção artistas, grupos e coletivos teatrais da cidade: as inscrições para o 2º Festival de Cenas Curtas da APAC já estão abertas e seguem até o dia 5 de junho. É a chance perfeita para levar ao palco propostas cênicas de 10 a 15 minutos de duração. O festival acontecerá entre os dias 29 e 31 de julho no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM). As inscrições podem ser feitas por meio deste link.

O evento também conta com prêmio em dinheiro. As três melhores cenas receberão, respectivamente, R$ 600, R$ 400 e R$ 200. Além disso, haverá entrega de troféus e certificados para as categorias de Melhor Direção, Melhor Atriz e Ator (principais e coadjuvantes), Cenografia, Trilha Sonora, Maquiagem, Figurino e Cena Destaque. A lista com os trabalhos selecionados será divulgada no dia 26 de junho. 

AGENDA

“Na estrada”
Nesta quinta-feira (28), às 20h, o palco do Teatro Paschoal Carlos Magno se transforma em uma grande encruzilhada. A companhia Axé Deles apresenta, pela primeira vez no palco do Paschoal, o espetáculo “
Na estrada”. A trama mergulha nas escolhas e nos conselhos de uma Pombogira, conduzindo o público por uma travessia intensa que fala sobre desejo, destino e os caminhos da transformação.

  • Onde: Teatro Paschoal Carlos Magno
  • Quando: Quinta-feira (28), às 20h.
  • Ingressos: Uniticket

“A falecida” (Sessão Extra)
Quem não conseguiu conferir a aclamada montagem do Grupo Aquele Grupo no Cine-Theatro Central — ou quem deseja repetir a dose da catarse rodriguiana — tem uma nova chance. “
A falecida” ganha uma reapresentação neste sábado (30), às 20h, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas. Uma excelente oportunidade para ver (ou rever) de perto o texto clássico de Nelson Rodrigues transformado em um drama cortante e contemporâneo.

  • Onde: Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM)
  • Quando: Sábado (30), às 20h.
  • Ingressos: Gratuitos, com retirada antecipada através da plataforma Sympla.