O inferno são os outros

Em nova apresentação da Companhia Delta Dell’Arte, o clássico existencialista ‘Entre quatro paredes’ de Jean-Paul Sartre revisita a angústia humana, o peso do olhar do outro e a impossibilidade de escapar de si mesmo


Por Pedro Moysés

12/05/2026 às 13h13

A peça “Entre quatro paredes” (“Huis clos” no original), terá mais uma apresentação em Juiz de Fora com encenação do grupo Delta Dell’Arte, neste sábado (16). A peça, que convida o público para um confronto com a arqueologia do pensamento existencialista do século 20, será apresentada no Teatro Paschoal Carlos Magno, às 19h. Escrita em 1944, em meio aos escombros morais da Segunda Guerra Mundial, a obra de Jean-Paul Sartre permanece como uma síntese dramática do peso ontológico da convivência humana.

Jean-Paul Sartre (1905-1980) consolidou-se como o “intelectual total”, e sua biografia se confunde com as tensões políticas de sua era. Formado na elite intelectual de Paris, Sartre desenvolveu sua filosofia tendo como premissa que “a existência precede a essência”, o que significa que o ser humano primeiro existe no mundo para somente depois definir quem ele é através de suas escolhas e atos. Para o filósofo, o homem está “condenado a ser livre”, pois não possui uma natureza pré-definida ou um guia divino, sendo o único responsável pelo significado que atribui à sua vida

Segundo Sartre, o homem não possui um modelo metafísico ou uma natureza pré-determinada, mas é, fundamentalmente, o projeto que escolhe ser por meio de seus atos. Esta liberdade, contudo, é indissociável da angústia, pois retira do indivíduo qualquer álibi determinista.

Tal densidade filosófica encontra sua expressão máxima na dramaturgia com o texto “Entre quatro paredes”. A peça rompe com a iconografia clássica do cenário do inferno. Em vez de chamas ou torturas físicas, o local é representado por uma sala sem janelas e espelhos onde a tortura reside na presença perpétua do outro e na impossibilidade de fechar os olhos ou dormir, o que Garcin, um dos personagens, descreve como “a vida sem interrupção”.

A ausência de espelhos no recinto é um artifício fundamental para ilustrar a dependência ontológica que os personagens desenvolvem em relação ao olhar alheio. Estelle, uma mulher fútil que se reconhece apenas por meio de sua imagem, reclama: “Como é vazio um espelho em que não estou!”. Sem o reflexo material, ela é forçada a usar os olhos de Inês como espelho, submetendo sua identidade ao julgamento e à possível “mentira” do olhar do outro.

O cerne do conflito na peça é o fenômeno da objetificação. O olhar do outro reduz o sujeito à condição de objeto, retirando-lhe a autonomia. Eles estão presos em um ciclo de “má-fé”, tentando convencer uns aos outros de mentiras que contaram para si mesmos: Garcin tenta provar que não é um covarde; Inês mascara sua crueldade e Estelle esconde o infanticídio que cometeu.

A célebre frase “o inferno são os outros”, frequentemente reduzida de forma vulgar, surge como a conclusão lógica do enclausuramento vivido pelos personagens. Ela não aponta para a maldade intrínseca da humanidade, mas para o fato de que o julgamento alheio é o espelho implacável que nos revela a verdade de nossos atos, sem as desculpas que costumamos dar a nós mesmos. 

Tal desfecho é um lembrete da inércia humana perante a liberdade: mesmo quando a porta do inferno se abre, os personagens escolhem permanecer, pois não podem escapar da necessidade de validação pelo outro. 

O inferno são os
outros
(Foto: Divulgação)

“Entre quatro paredes” – Delta Dell’Arte

O texto existencialista de Jean-Paul Sartre retorna aos palcos de Juiz de Fora em montagem do Grupo Teatral CriArte.
Local: Teatro Paschoal Carlos Magno
Data: sábado (16), às 19h
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia), venda pela Uniticket

Elenco: Anderson Ferigate, Marcia Mello, Reinaldo Emerson e Sibelle Pezarini
Direção: Paulo Moraes