Falta mão de obra aos domingos


Por BÁRBARA RIOLINO E GRACIELLE NOCELLI

03/05/2015 às 07h00

Antônio Bertocchi registra perda nas vendas devido às ausências constantes (MARCELO RIBEIRO/23-04-15)
Antônio Bertocchi registra perda nas vendas devido às ausências constantes (MARCELO RIBEIRO/23-04-15)

O comércio de Juiz de Fora enfrenta o desafio da falta de trabalhadores que aceitem cumprir jornada aos domingos e feriados, o que tem causado prejuízos ao setor. Enquanto boa parte dos estabelecimentos se vê impossibilitada de abrir as portas, outros atuam com déficit de até 10% da mão de obra. A compensação oferecida ao funcionário pelo trabalho nesses dias varia entre os segmentos, o que contribui para que a dificuldade seja maior em supermercados, bares, lanchonetes e padarias.

O gerente da Padaria Pão Melhor, Sebastião Dias Gonçalves, conta que no estabelecimento há um déficit de 10% no quadro de funcionários por conta desta rotina de trabalho. “A jornada é dividida em dois turnos, para contemplar nosso horário de atendimento, que vai das 7h às 21h. Aos finais de semana, quando há faltas, o serviço fica sobrecarregado.” Ele ressalta que os domingos contam como hora-extra remunerada. “Os funcionários ainda têm direito a folgas alternadas.”

A dificuldade em conseguir trabalhadores também tem causado prejuízos ou reduzido os ganhos. Na lanchonete Dago’s, o proprietário Antônio Bertocchi afirma que, nos últimos meses, as vendas caíram em torno de 10%, muito em função das faltas que acontecem, de forma frequente, aos domingos. “Muitas pessoas ligam pedindo lanche, e na maioria dos casos, não temos funcionários para entregar. Não sei o que acontece, faltam comprometimento e gente para trabalhar.”

O presidente do Sindicato dos Empregados em Comércio Hoteleiro e Similares (Sindecohtul), que abrange funcionários lotados em restaurantes, bares e lanchonetes, Edivaldo Dornelas, ressalta que o déficit ocorre pois domingo é tido como o de descanso para a maioria das pessoas. “Como a necessidade do serviço é indiscutível, acredito que a solução para o problema seria a concessão de pagamentos suplementares, em valor superior ao já disposto em lei, como forma de minorar a resistência verificada”, observa, acrescentando que faltam, ainda, melhorias nas condições de trabalho.

Na análise do gerente regional do Sebrae Minas, João Roberto Marques Lobo, para resolver o impasse seria importante a valorização do funcionário. “Deveriam ser realizadas ações direcionadas ao colaborador que cumpre esta jornada, tais como oferta de capacitação e benefícios. O clima organizacional é fundamental para o trabalhador vestir a camisa da empresa.” João Roberto vê nessas ações um investimento por parte do empresariado. “A partir do momento que o público se habituar com a rotina do comércio aos domingos e feriados, a demanda será maior, podendo promover um turismo regional.”

Emerson Beloti, presidente do Sindicato do Comércio de Juiz de Fora, diz que os empresários precisam mudar a postura diante do domingo. “Juiz de Fora se porta como capital da Zona da Mata, mas não assume o posto totalmente. Se o comércio como um todo passasse a funcionar neste dia, não só os juiz-foranos, mas a população de toda a região seria beneficiada.”

Especialista em marketing e coordenadora do curso de administração da Faculdade Machado Sobrinho, Joyce Altaf, no entanto, alerta empresários e trabalhadores sobre o atual momento econômico. “Para que exista a necessidade de se abrir o comércio aos domingos e feriados é preciso demanda suficiente para aferir lucro, e estamos passando por um período de queda na atividade econômica. Há ainda um agravante no quesito mão de obra, pois vivíamos, até pouco tempo, um período de ‘pleno emprego’, o que alimenta no empregado a opção de barganha com o contratante. Ela orienta que empresários busquem alternativas e ideias novas para alcançar maiores vendas e, assim, poder remunerar melhor. “Conscientização e treinamento também sempre ajudam a incutir nos colaboradores quais são as necessidades para esta nova realidade.”

Em defesa de acordo diferenciado

O Sindicato dos Empregados no Comércio (SEC-JF) afirma que a categoria é contra o trabalho aos domingos e feriados. “Não há incentivo  e nem movimento de consumidores para isso”, afirma o vice-presidente Wagner França. Ele destaca que o Independência Shopping possui acordo diferenciado, que garante a remuneração de R$ 50 por domingo trabalhado e R$ 55 por feriado. “Existe um acordo entre a a Associação dos Lojistas e o sindicado, que é mais vantajoso e diferente das demais convenções. Além da remuneração referente aos domingos trabalhados no mês, há o piso e mais a comissão. Nos mercados, não existe essa possibilidade”, destaca o presidente do SEC-JF, Silas Batista da Silva.

Andréia Gomes destaca a importância de se manter a equipe motivada (FERNANDO PRIAMO/23-04-15)
Andréia Gomes destaca a importância de se manter a equipe motivada (FERNANDO PRIAMO/23-04-15)

Shopping

Mesmo com as vantagens oferecidas, a gerente da loja Arezzo no Independência Shopping, Andréia Gomes de Menezes, afirma que realizar contratações não é tarefa fácil. “Hoje estamos com quadro completo, mas é muito difícil encontrar a pessoa certa.” Segundo ela, os casos em que o funcionário depois de admitido falta ao trabalho é recorrente. “Recebemos muitos currículos de interessados, mas por vezes, na prática, não há responsabilidade e comprometimento.” Para manter o quadro completo, ela conta que há preocupação em motivar a equipe. “É importante vestir a camisa da loja e gostar do que se faz.”

Trabalhadores querem melhorias

Na visão da categoria, faltam incentivos salariais e atrativos que garantam a permanência do trabalhador na empresa e reduzam a elevada rotatividade hoje existente. O piso do trabalhador do comércio está fixado em R$ 881, conforme convenção coletiva de trabalho (CCT) firmada entre os sindicatos patronal e laboral. O principal perfil de quem busca uma oportunidade nesse setor é de jovens que querem o primeiro emprego e pretendem conciliar trabalho e estudos. A princípio, a obrigatoriedade de trabalhar aos domingos e feriados não se torna atrativa para este público, a não ser quando a gratificação se mostra compensatória.

Estudante de um cursinho pré-vestibular, N.S., de 22 anos, conta que desistiu de tentar emprego em um supermercado porque atrapalharia os estudos. “Soube que estavam contratando, mas como tenho conhecidos que trabalham no local, não quis tentar. O salário é baixo, os benefícios são poucos e o trabalho aos domingos prejudicaria o cursinho.” Como alternativa, ela começou a trabalhar como babá em turno diferente das aulas.

Para o gerente de marketing do Bahamas, Nelson Júnior, o principal entrave para a contratação é referente ao perfil do trabalhador. “Acredito que o problema não seja a jornada de trabalho, pois já existe o entendimento de que o supermercado é essencial e deve abrir nesses dias. A grande questão é que o colaborador, em geral, é o jovem em busca da primeira colocação no mercado de trabalho. Muitos enxergam o comércio como uma atividade inicial e não como uma possibilidade de fazer carreira.”

Pela convenção coletiva, os funcionários de supermercados precisam cumprir jornada de 44 horas semanais, de segunda-feira a sábado. Quanto aos domingos, o acordo determina que sejam trabalhados dois por mês, de forma alternada. Os mesmos não são remunerados, apenas compensados em folga durante a semana seguinte. Neste regime, apenas o feriado é remunerado, sendo pagos R$ 53 pelos estabelecimentos que têm até 99 colaboradores e R$ 60 para aqueles com cem ou mais. Além do pagamento, o trabalhador tem direito a uma folga.

Há sete meses atuando em um destes estabelecimentos, S., 20 anos, avalia que a única desvantagem de trabalho aos domingo é não ter remuneração extra. “Sempre ficamos além do horário e não recebemos pelas horas-extras que fazemos. Chega a ser constrangedor. Além disso, a folga em que temos direito tem que ser tirada em apenas um dia já determinado, e não quando realmente precisamos.” A CCT define que a jornada extra deve ser remunerada. As duas primeiras horas serão equivalentes a 50% do valor em horário normal e as demais 70%.

Rotina

Já a convenção coletiva dos funcionários lotados em bares, restaurantes e similares, que assemelha-se a acordada pela panificação, estabelece que os domingos e feriados sejam compensados com folga na mesma semana. Caso isto não ocorra, cada um destes dias trabalhados serão remunerados como se fossem dois. Atuando na panificação há 12 anos, A., de 34 anos, conta que apesar de receber pelos domingos e feriados, a rotina é cansativa. “Já perdi vários compromissos de família por ter que trabalhar aos domingos. Nesta Páscoa, por exemplo, não pude passar o dia com minha filha.” Ela conta que sonha em retomar os estudos, mas como encerra o expediente às 21h40, não dá para iniciar um curso à noite. “Durante o dia, preciso cuidar da casa e da criança para estar, à tarde, no serviço.”