Agenda cheia e fila de espera


Por FABÍOLA COSTA Repórter

14/09/2014 às 06h00- Atualizada 15/09/2014 às 09h33

Estofador Antônio Carlos tem clientes que esperam por mais de seis meses

Estofador Antônio Carlos tem clientes que esperam por mais de seis meses

Jael tem 52 funcionários, todos com agenda cheia

Jael tem 52 funcionários, todos com agenda cheia

Eles sabem que as vendas, assim como a intenção de consumo, estão em queda. Que o faturamento das micro e pequenas empresas recuou e foi acompanhado pela redução de investimentos. Conhecem os indicadores que atestam retração da atividade econômica no país, com consequências diretas no comportamento do consumidor. Mas não apenas sobrevivem, como avançam, quase impassíveis, neste momento peculiar da economia brasileira, mantendo a agenda concorrida, a fila de espera, a longa jornada de trabalho e a contratação de serviços, um atrás do outro. A aparente “blindagem” tem causas mercadológicas concretas, que vão desde a escassez de mão de obra à prática de preços atrativos, passando pela oferta de diferenciais ante a concorrência.

Em Juiz de Fora, quem quer reformar ou fabricar um estofado sob encomenda precisa esperar até seis meses para conseguir vez na agenda de Antônio Carlos Gonçalves Ribeiro, 58. Estofador há 25 anos e dono da Classic há 15, o empresário comenta que são muitos os que esperam até mais. “Fico lisonjeado e queria que o tempo pudesse ser reduzido para duas semanas.” Conhecido pela propaganda “boca a boca”, Antônio acredita que fidelizou clientes por ser honesto e cobrar “preço justo” pelo serviço combinado. “Se eu abrir um sofá e falar que a madeira está com cupim, vou substituir a madeira e não camuflar, aplicando produto.” Apesar de sobrar demanda, falta mão de obra, ele reconhece. Este, aliás, seria o motivo para não expandir o negócio, o que encurtaria o tempo de espera do freguês. Além da filha, trabalham com ele outros dois estofadores. Para Antônio, não há retração na demanda, mas muito trabalho, de domingo a domingo. “Quando não estou reformando, estou aqui para arrumar a loja e o estoque. Faço porque gosto. Sinto prazer de ver pronto.”

Na agenda da cabeleireira Jael Pifano, com sorte, consegue-se uma vaga para daqui a 15 dias. Com 38 anos de atuação no mercado, sendo 28 no negócio próprio, Jael comenta que não tem motivos para reclamar. “As clientes entram e não querem sair”, diz, entre risos. A disputa por um horário, comenta, estende-se a equipe, formada por 52 profissionais. Para a empresária, além da qualidade do serviço prestado, há a relação estabelecida com as clientes, alimentada pelo diálogo e por muito trabalho. Em períodos de maior procura, a cabeleireira chega a atuar por até 12 horas ininterruptas. Jael começou no ramo aos 14 anos, como ajudante de salão, porque queria estudar e não tinha recursos. Após se capacitar, chegou a atuar em outra área, mas continuou sendo demandada pelas clientes e decidiu abrir o salão. “Tenho muito amor pela profissão e adoro trabalhar com mulheres. É um trabalho que suga e exige muita dedicação, mas gosto de ver a transformação delas.”

 

Clientela fiel

“Eu nunca fiz cartão de visitas. O meu cartão é o serviço que fica para trás.” Com mais de 30 anos de experiência como pintor, sendo 25 como autônomo, Sérgio Ricardo de Oliveira, 50, afirma que nunca enfrentou crise. “Não me falta serviço. Saio de um, entro em outro”. Ele aprendeu a trabalhar com pintura de ambientes aos 16 anos, na primeira ocupação profissional, e nunca mais largou os galões de tinta. Apesar de o serviço ser considerado cansativo, é com ele que Sérgio criou os três filhos e mantém a família. O segredo para conquistar clientela cativa, que chega a esperar até dois meses para contar com o seu serviço, é, na sua opinião, o fato de ele mesmo realizar o trabalho, sem terceirizações. “Não admito pegar um serviço e colocar outra pessoa para executá-lo.”

Para o gerente regional do Sebrae Minas, João Roberto Marques Lobo, apesar de a retração da atividade econômica afetar vários segmentos produtivos, alguns conseguem se tornar quase imunes por motivos como escassez de mão de obra e oferta de preços competitivos. “Independente da área, é importante que se consiga apresentar qualificações melhores ou soluções diferenciadas ante as do concorrente, mesmo em áreas afetadas pela crise.” Conforme João Roberto, em relação a serviços rotineiros, pode haver redução da frequência, mas dificilmente haverá descontinuidade do uso, principalmente se o prestador de serviço conseguir fidelizar a clientela.

Diferenciais minimizam perdas

As sócias do Momento Mágico, Ana Lúcia Machado de Oliveira e Maria das Graças Oliveira Almeida, dificilmente deixam de realizar uma festa infantil durante o fim de semana, sendo o sábado a data mais concorrida. Este ano, no entanto, perceberam uma pequena queda na procura pelos dias úteis, assim como mudança no comportamento de alguns clientes. Segundo Ana, os pais não deixam de comemorar o aniversário dos filhos, mas, em alguns casos, há redução no número de convidados e mudança no perfil da festa, como a preferência pela decoração básica ante a personalizada, mais cara. “Não deixam de fazer a festa, mas gastam menos”, avalia. Para a sócia, entre os motivos para a agenda permanecer concorrida estão, além da tradição de 17 anos no mercado, o cuidado no atendimento e a preocupação para que sejam mantidas a quantidade e a qualidade dos produtos, mesmo que isso exija mais custos não repassados ao cliente.

No Estacionamento Braz Bernardino, popularmente conhecido como estacionamento do Hotel Serrano, o gerente Francisco Gomes Vieira também identifica que o momento econômico e a concorrência impactam a procura pelas 260 vagas. A avaliação, no entanto, é que a procura continua intensa, principalmente nos fins de semana. Ele destaca a tradição do estabelecimento, a clientela cativa, a localização estratégica, o critério na seleção dos funcionários e o diferencial de flexibilizar o horário de funcionamento de acordo com a agenda de eventos, como formaturas e shows no Cine-Theatro Central. “Estamos de olho na programação cultural da cidade para sempre estarmos à disposição dos clientes.”

Crescimento menor

No entendimento do professor da Unicamp Cláudio Dedecca, com a desaceleração da economia, o consumo apresentou redução no ritmo de crescimento, sem significar retração acentuada da demanda. A situação, para ele, continua favorável à mão de obra, já que o estancamento do nível de atividade econômica reflete em redução de geração de emprego, sem aumento do desemprego. Dedecca identifica escassez de trabalhadores em algumas atividades, como as voltadas para reparação domiciliar e de empresas, fazendo com que os profissionais nestes setores sejam disputados, com demanda garantida. Segundo o economista, de uma forma geral, os segmentos do mercado de trabalho melhor qualificados tendem a sair imunes em uma situação de crise, considerada, por ele, difícil de acontecer no país.