COMBATE À MISÉRIA


Por Tribuna

05/05/2011 às 07h00

A decisão da presidente Dilma de priorizar o combate à miséria, a fim de livrar 16 milhões da linha abaixo da pobreza, é louvável não só pelo fato de cumprir uma meta de campanha, mas pelas razões humanitárias que deveriam ser comuns a qualquer Governo. O Brasil, a despeito dos avanços experimentados nas últimas duas décadas, ainda tem um déficit acentuado com os segmentos mais carentes, o que cria um contrassenso: tenta ser uma nação de primeiro mundo enquanto sustenta dados de terceiro. É fato que houve melhoras. De acordo com os índices divulgados na última terça-feira pela Fundação Getúlio Vargas, o percentual de pobres caiu em mais de 50% entre dezembro de 2002 e dezembro de 2010, confirmando a importância das políticas públicas de inserção social.

A prioridade é fundamental, mas é importante considerar outras camadas, inclusive aquelas que mudaram de patamar e se encontram numa faixa de indefinição. A nova classe média experimenta um novo quadro de acesso aos bens de consumo, mas começa a pagar uma conta pela qual não foi responsável: o aumento da inflação. O país agiu no sentido de mudar o seu cenário social, mas foi leniente ao não investir na infraestrutura e, principalmente, no setor produtivo. Hoje, temos um consumo em curva ascendente enquanto a produção não dá conta do mercado. Como resultado, os preços sobem, mesmo em períodos em que não haveria motivo para isso ocorrer.

O desafio de acabar com a miséria deve ser acompanhado por ações de combate à inflação, pois não há espaço para o retorno aos tempos em que a incerteza dos preços gerava um mercado de especulação. Há um elevado contingente de brasileiros que, sequer, sabe o que é inflação por não ter convivido com a ciranda de preços dos anos 1980. É preciso, pois, estar atento para os picos que já incomodam, embora o ministro da Fazenda, Guido Mantega, tenha afastado qualquer risco. Como o discurso nem sempre corresponde aos fatos, é vital insistir na vigilância.