O efeito da novela


Por HUMBERTO PINHO DA SILVA

05/04/2011 às 07h00

Divergem as opiniões: asseveram uns que a TV, mormente as novelas transmitidas pelos canais de televisão, tem influência nefasta na sociedade; refutam, ao invés, outros, afirmando que séries e novelas são simples e inocentes reflexos ou espelhos da sociedade. Quem terá razão?

Creio que são os primeiros, visto que o público é facilmente sugestionável, tendendo sempre a copiar atitudes e comportamentos que fazedores de opinião e novelistas pretendem inculcar nas mentes.

Já no passado era assim. Romancistas e folhetinistas de gazeta exerciam forte influência no trem de vida da população. D. Francisco Manuel de Melo – clássico da literatura portuguesa – demonstrou, de modo inequívoco, no seu livro de Guia, o que acabo de assegurar. A interessante tese de doutoramento que a doutora Raquel Carriço, investigadora brasileira, apresentou na Universidade Nova de Lisboa vem revelar que muitos jovens observam cuidadosamente as novelas, mormente as de produção nacional, no intuito de aprender como devem se vestir e se comportar em determinados meios.

Concluímos, então, que a TV, o cinema e a imprensa influenciam a população, levando-a a tomar atitudes que antes reprovava. O que foi dito não é novidade: a moda sempre foi ditada pela elite, que altera o vestuário de harmonia com gostos e interesses.

Tive um professor de Economia que contou numa aula que um importante industrial têxtil acordara com estilistas, a troco de certa quantia, que as saias descessem até os joelhos, a fim de aumentar a produção de suas fábricas. E afirmava: as saias, durante anos, subiam consoante os acordos, e as mulheres seguiam religiosamente as tendências para estar na moda.

Isso confirma que nada é mais influenciável que a opinião pública, e que esta copia meneios e atitudes de figuras conhecidas, personagens de filmes e novelas televisivas. Quem segue as novelas além da história – em regra imoral – observa atentamente o vestuário, a linguagem, o modo de comportamento e a sensibilidade das personagens e aplica o que viu na vida quotidiana.

Daqui se ajuíza a responsabilidade dos que têm a seu cargo escrever guiões e dos que os realizam.

A degradação moral e cívica da sociedade deve-se, em parte, à novela televisiva. Comportamentos de violência, desregramento sexual, perversões não aparecem por acaso, são fruto de imoralidades e atitudes repugnantes que constantemente atingem as camadas jovens. Não seria necessário Raquel Carriço ter-nos dito, na sua tese, o efeito da novela no comportamento da sociedade, porque é intuitivo: maus livros, filmes violentos, novelas promíscuas só podem levar à destruição da família e aos desvarios em que vive a sociedade.