Da morte do craque às mortes do crack


Por PROF. DR. MÁRIO SÉRGIO RIBEIRO (Laboratório de Pesquisas em Personalidade, Álcool e Drogas da UFJF)

11/12/2011 às 07h00

Manchete e colunas da Tribuna do dia 08/12/2011 repercutem a questão das consequências individuais (saúde) e sociais (segurança) do uso de substâncias psicoativas. Mais uma vez, estamos diante das falácias políticas da liberação de recursos para ações programáticas que – ainda quando plena e efetivamente realizadas, e sem os desvios financeiros aos quais parecemos habituados – não seriam capazes de conduzir aos resultados propagandeados os que esperam uma solução para seus sofrimentos pessoais e/ou familiares.

Recentemente, o Estado brasileiro – seja em nível federal, estadual ou municipal – tem primado pelo recurso a medidas simultaneamente paternalistas e restritivas da liberdade individual que, frequentemente, são incapazes de promover tais resultados sugeridos à população, ainda que contribuam para o fortalecimento de interesses políticos e econômicos de seus parceiros mais afinados.

Alexandre Garcia, em seu comentário no telejornal da manhã, advertiu que o uso do crack tem assumido, em nosso país, um espaço que já foi da cachaça, com suas promessas de um pseudobem-estar imediato que, cedo ou tarde, raramente deixa de cobrar sua conta. Educar é mais importante, afirma, também na Tribuna, nosso colega Sagrado Lamir David, ao abordar a questão da segurança social, enquanto as políticas de Estado propõem, para os usuários do crack, a internação involuntária, paga pelo contribuinte para os novos empresários da saúde mental. É a nova face da indústria da loucura, a história que se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.

Educar é importante, mas não é tudo, como nos mostra o exemplo do doutor Sócrates: o uso de substâncias psicoativas (álcool e outras drogas) faz parte da história da humanidade e não é razoável supor que seu uso irá ser definitivamente erradicado e que poderemos deixar de nos ocupar com suas consequências negativas (individual e socialmente): será que conseguiremos lidar com essa questão de uma forma mais equilibrada e crítica, sem o recurso a demonizações ou ações messiânicas?

Em rigor, cada um de nós deveria se perguntar se estamos dispostos a, efetivamente, modificar nossos padrões de comportamento – tanto individuais como coletivos – no sentido de atitudes menos hedonistas, menos individualistas e mais responsáveis, tanto individual quanto coletivamente. Se assim o for, podemos esperar mudanças sociais mais amplas, em que o processo de educação de cada pessoa necessariamente deverá resgatar a relevância da internalização de normas de convivência humana em que o respeito ao outro seja um valor inquestionável.