O Real Itamar


Por MARCELLO SIQUEIRA Engenheiro

08/01/2012 às 07h00

No espocar dos fogos que iluminaram os céus do Brasil, saudando a chegada de 2012, podia se ouvir também a euforia dos brasileiros pela conquista do sexto lugar no ranking dos países mais ricos do mundo. Parafraseando o escritor João Ubaldo Ribeiro,Viva o povo brasileiro! e não apenas os economistas que se alternaram à frente da manutenção da ordem financeira, desde 1º de julho de 1994, quando o Presidente da República Itamar Franco colocou fim na interminável era de incertezas ditadas pelos números astronômicos da inflação e implantou uma nova moeda nacional denominada Real.

Para se entender esse devido crédito ao nosso mais ilustre conterrâneo, vale lembrar que o país estava saturado de crises econômicas intermináveis. Em setembro de 1992, Itamar foi efetivado como 33º presidente da República, com dois anos e três meses de mandato a cumprir – tempo curto para disciplinar uma economia aos frangalhos, desacreditada em várias décadas por políticas econômicas comandadas pelo regime militar e, em sequência, por Sarney e Collor. Estes tentaram e fracassaram diante dos desafios, através de pacotes e medidas inócuos de corte de zeros a cada nova moeda (cruzado, cruzado novo, cruzeiro, cruzeiro real), congelamento de preços e de salários, confisco das poupanças etc.

Desde que assumiu, Itamar Franco enfrentou com modéstia e retidão moral a má vontade estampada nos editoriais, principalmente da imprensa paulista, e de políticos menores que destacavam a sua mineirice – o estranho mercurial foi um dos adjetivos usados para traçar o seu perfil, como se ele apenas fosse sujeito ao sobe e desce dos humores, diante de diferentes situações. O presidente fazia prevalecer os seus princípios de apego fanático à democracia e combate sem tréguas à corrupção, sem temores, quando exibia um caráter com a solidez dos granitos. Enfim, o país tinha um estadista na Presidência (estadista, segundo o Houaiss, é a pessoa que exerce liderança política com sabedoria e sem limitações partidárias).

Há 17 anos, em 1º de janeiro de 1995, Itamar Franco entregava ao seu sucessor, Fernando Henrique Cardoso, um novo país com uma nova moeda e uma imagem altiva e respeitada no mundo. Foi a partir daí que o povo brasileiro passou a realizar sonhos acumulados, galgando degraus nas escalas sociais e não parou. (num exercício de livre pensar, fica um desafio à imaginação de cada leitor: como seriam os governos de FHC, Lula e agora de Dilma, às voltas com a moeda corroída por inflação de mais de 60% ao mês, num período em que as maquininhas reajustavam os preços pela manhã, à tarde e à noite, corroendo o salário dos trabalhadores de uma forma desastrosa?).

Itamar Franco enfrentou com competência e coragem essa situação antes da implantação do Plano Real. E, justamente agora que o Brasil surpreende novamente com mais essa demonstração de poder econômico, com o sexto PIB do mundo, é justo reavivar a memória coletiva para o início da era do Real, ressaltando a importância, na recente História do Brasil, do presidente Itamar Franco, seis meses após a sua morte.