Aprendiz ausente


Por IRIÊ SALOMÃO DE CAMPOS, COMUNIDADE ESPÍRITA A CASA DO CAMINHO

25/08/2012 às 07h00

Quem de nós, vez por outra, não se dedica a ver fotos antigas? Dos tempos passados, reencontramos gerações, amados que se foram e com nós mesmos. Jovens de roupas coloridas, calças apertadas ou largas, vastas cabeleiras que escondiam a calvície futura, meninas de longos cabelos esculpidos a bobs e laquê, em lugar dos alisados a chapinha. E pensamos, depois dos risos: como usei isto? – É moda!

Assim também se dá com as gírias, chavões e as diversas maneiras do pensar. Muitas coisas, para os mais antigos, cousas, repetimos sem nos dar efetiva conta do significado nas entrelinhas. Alguns vivem no deixa a vida me levar ou, simplesmente, como Tomé, tenho que ver para crer. Relembrando, Tomé era um dos doze discípulos do Cristo, o único que não estava presente quando Jesus, após a morte de seu corpo físico, se fez visto em espírito e verdade. Descontente consigo mesmo, por não haver testemunhado a presença viva do Cristo, reclamou provas. Duvidou da palavra dos amigos e eternizou-se como símbolo verbal de todo trabalhador ausente e despreocupado com a tarefa que lhe é devida e do dever que lhe cabe.

Mas a vida é rigorosa, e o chamado destino, ou futuro, não admite improvisações. Sem o domínio das letras, o estudante matriculado que é faltoso não alcançará a silabação, ou a posse das palavras, muito menos a construção de textos. Jamais chegará ao conhecimento, e nem de longe perceberá o real sentido da vida. Será mais um repetidor do verso: deixa a vida me levar.

Matrícula é apenas o documento de acesso às dependências da instituição de ensino e, por si só, não produz o aprendizado. O diploma não garante o conhecimento do doutor, o hábito não faz o monge, e, muito menos, cirurgia, silicone, botox e implante capilar não resgatarão os tempos das fotos.

A ausência de Tomé e suas reclamações quando da vinda do Mestre contribuíram para a criação do tipo de aprendiz exigente e suspeitoso. Inúmeros são os matriculados na escola da vida, igualmente grande é a quantidade de Tomés, aqueles desatentos que apenas buscam vantagens imediatas.

Havendo pretensão em crescer na busca da felicidade, não podemos abrir mão dos pequenos deveres com os mais próximos. Sem a prática do contato com as obrigações mais modestas de cada dia, sem o atendimento aos mais humildes, como poderemos perceber ou dilatar os sentimentos para nos ajustar às Leis Divinas e eternas?

O aprendiz ausente da aula não pode reclamar benefícios decorrentes da lição. Aos que desejam as bênçãos divinas, trabalhem por merecer, como o fez o Mestre Jesus!