Ivan, o Terrível


Por RODRIGO BARBOSA

30/10/2011 às 08h00

Ele cofiava a barba, num gesto que começava com o polegar e o indicador alisando o bigode e terminava com a mão puxando a ponta dos pelos semigrisalhos, já perto da barriga. Camisa aberta no peito, fitava o interlocutor com um olhar fundo. E sua voz rouca disparava uma verdade desconcertante, uma análise precisa (muitas vezes premonitória) ou apenas uma provocação divertida. Não perdia tempo com bobagens. A ele, interessavam sua terra, seu país, o mundo, os amigos, os sonhos.

Ivan Barbosa sonhou – e fez. Fez puxar o fio que costurou um novo rumo para a história da sua Juiz de Fora. Ali, na metade dos anos 1970, à frente do Diretório Central dos Estudantes, ele deu sentido e força ao movimento da juventude em defesa da liberdade de opinião e no combate à ditadura, ao mesmo tempo em que reunia corações e mentes em torno da arte e do esporte. A reorganização dos Diretórios Acadêmicos, a gráfica do DCE (que abasteceria de panfletos e outras publicações não apenas a luta estudantil, mas todas as frentes de resistência ao governo militar), o Som Aberto (marco na trajetória cultural da cidade), os Jogos Universitários (enchendo ginásios e estádios) são algumas das invenções que trazem a digital do Ivan.

Mas foi muito mais. Ele reunia, estimulava, provocava, formava talentos. Jovens, como ele, que viriam a ser protagonistas da nova história de Juiz de Fora. Gente que se juntou em torno do Ivan e fez sua campanha para vereador em 1976. Aos 28 anos, o mais votado da cidade, com o slogan simples, direto e provocador: Vote contra o Governo.

Sim, havia como resistir, como enfrentar. Mas o sonho do Ivan era mais ambicioso: ele mostrava que tinha espaço para ser ocupado. E, no seu rasto (e sempre sob seus conselhos e suas bênçãos), gente de bem, gente boa, foi em frente e desdobrou seu sonho.

Ivan se recolheu sem jamais se esconder. Transformou seu refúgio (o quarteirão que ligava sua casa ao Bar do Nonô) em posto avançado de aguda observação. E numa espécie de oráculo municipal, onde poderiam ser encontradas sábias respostas para as principais questões.

Nos livros de história, Ivan, o Terrível é apresentado como o maior tirano da Rússia. Seu xará de Juiz de Fora enfrentou de peito aberto (e com habilidade) os tiranos daqui. Inventou um caminho novo. Tornou-se referência. Sem fazer concessões, foi admirado e seguido.

No dicionário, o adjetivo terrível tem também o significado de extraordinário. Assim foi o nosso Ivan Barbosa, o extraordinário, o que foi além do comum, o que fez a diferença.

E agora, vamos ouvir quem?