Da velhice desejada
Estamos enganados ao pensar que a velhice nos aproxima da morte. Se há uma coisa que a morte é incapaz de ser é preconceituosa. Brancos, negros, índios, ricos, pobres, homens de ação, intelectuais, fortes, fracos, jovens, velhos… Todos estão sob a sua mira.
A nossa única certeza é de que um dia iremos morrer. Deixaremos de existir da maneira que nos conhecemos agora: portadores de um corpo palpável. Essa é uma das coisas que não podemos negar: somos matéria, possuímos uma massa.
Em breve morreremos. A morte arrasa, paralisa o nosso organismo e a nossa consciência; a ciência está aí para provar isso. Pelo menos por enquanto, nós não podemos viver eternamente em uma vida material. Uma hora, querendo ou não, iremos partir do físico para o metafísico. E apesar da morte estar presente tanto na vida dos jovens quanto na vida dos velhos, na mesma intensidade, para esses últimos a morte parece – o que se revela um verdadeiro engano – ser sempre mais cruel.
A inconsciência nos assusta com as suas garras frias e medonhas, pois, inconscientemente, prezamos pela consciência. Essa consciência quer, a todo custo, resgatar informações que já caíram no inconsciente e se desespera ao ver que tal façanha é praticamente impossível, pois tudo aquilo que caiu no inconsciente jamais pode ser resgatado. Nós só podemos recuperar algo se esse algo ainda está instalado no pré-consciente. Nada nos aterroriza mais do que os vales escuros e sombrios da inconsciência. Aqui podemos tomar uma definição superficial do que é a morte: a perda da consciência.
Apesar da morte naturalmente afligir o ser-humano, pois, incontestavelmente, nós tememos o desconhecido, o que mais me assusta na morte não é a perda da consciência, mas morrer antes de envelhecer. Como diz uma sabia música de Arnaldo Antunes: não quero morrer, pois quero ver como será que deve ser envelhecer. Em outras palavras: morrer e não poder experimentar as novidades que só a velhice reserva.
Aquele que deseja a sabedoria quer, antes de tudo, envelhecer com saúde, pois só com o passar dos anos conseguimos moldar a sabedoria que está intrínseca ao nosso ser. A vantagem de ter essa aspiração por ficar velho com saúde é que não iremos minar nosso organismo com substâncias prejudiciais ao seu funcionamento, ou seja, não deixaremos de ingeri-las, mas a ingeriremos com moderação, pois, como diz um sábio ditado, tudo o que é feito em demasia faz mal.
Ainda estou muito longe de envelhecer, mas como diz o sábio Sêneca, preceptor de Nero, o louco imperador romano, os frutos de fim de estação são os mais gostosos; a infância é mais bela quando está próxima do fim; e o último gole do vinho é sempre o mais agradável. Porém, penso que Sêneca se enganou ao dizer que o sábio viverá o quanto for necessário e não o quanto puder, pois, se nós almejamos o saber, é indispensável o envelhecimento.
Indispensável porque só com ele nós aprendemos a olhar para trás e ver um longo caminho, tanto de felicidade, de bens alcançados, quanto de infelicidade, de frustrações adquiridas. A sabedoria vai se construindo por meio de reminiscências das experiências adquiridas ao longo da nossa existência. Creio eu que a velhice é um ótimo lugar para nos lembrarmos das nossas atitudes, do que fizemos e do que deixamos de fazer, pois não há mais a preocupação jovial de sobreviver; a única preocupação é viver e viver bem.










