Das cinzas à ressurreição


Por DOM GIL ANTÔNIO MOREIRA/Arcebispo Metropolitano

11/03/2012 às 06h00

Lembra-te pó, que tu és homem e que em homem te tornarás. O trocadilho de Vieira nos ajuda a entender o significado da Quaresma que iniciamos na Quarta-Feira de Cinzas. Observo que também não é difícil encontrar sua relação com o tema da Campanha da Fraternidade deste ano: Fraternidade e Saúde Pública, com o lema Que a saúde se difunda sobre a terra. (Eclo 38,8).

Ao pregar o sermão na Quarta-Feira de Cinzas de 1672, na Igreja dos portugueses em Roma, Padre Vieira não quis tanto recordar que o homem saiu do pó da terra e para ele deverá inevitavelmente voltar, mas desejou, muito mais, imprimir, nos corações dos fiéis, a esperança de uma vida nova, conquistada pela morte e pela ressurreição de Cristo, celebrada na Páscoa que a Quaresma prepara. É útil, abordando esse aspecto, recordar-se da fábula grega da fênix, a ave que renasce das cinzas. A reflexão leva a perceber a vida como algo sublime, superior e sagrado, que tem força de eternidade. Por isso ela deve ser defendida em cada ser humano e em toda a natureza para que seja condizente com suas necessidades e dignidade.

Já estamos acostumados a ouvir a exortação, ao receber as cinzas na quarta-feira: Lembra-te, homem, que tu és pó e em pó te tornarás (Gen. 3,19). Após o Concílio Vaticano II, adotou-se também uma fórmula alternativa que é: Convertei-vos e crede no evangelho (Mc. 1, 15). Tanto a primeira quanto a segunda asseveram ao fiel a necessidade de reconhecer a efemeridade da vida terrena, a necessidade de defender-se contra o pecado e contra todo tipo de mal e, ainda, de se preparar atentamente para a vida eterna. Porém, a vida eterna não se dá apenas depois da morte, mas tem seu início no seio materno e prossegue no tempo até seu fim natural neste mundo.

A expressão vieiriana é uma eloquente profissão de fé na vida, na ressurreição dos mortos, conquistada por Cristo na cruz para todos os que creem, celebrada na Páscoa anual das comunidades cristãs.

A cerimônia das cinzas nos introduz no tempo quaresmal, no qual devemos reforçar nosso hábito diário de conversão. Durante 40 dias, propomo-nos a entrar em clima de oração intensa, a jejuar, e a praticar mais a caridade, a semear a solidariedade, afinal, a criar e recriar formas de se viver em plena fraternidade. Oração, jejum e esmola são as três palavras históricas do tempo quaresmal, desde os primórdios do cristianismo.

Observamos, assim, que as cinzas que recebemos na entrada da Quaresma nos levam a crer na vida como vitoriosa sobre a matéria, sem desprezá-la, a observar a força de Deus mesmo nas situações difíceis ou que pareçam sem solução, além de nos levar a abaixar nossa cerviz e a destruir nosso orgulho, passando por real processo de conversão, assumindo atitude nova, de olhar o outro como verdadeiro irmão e a contemplar a vida como dom de Deus.

A Quaresma não existe para si mesma, mas em vista da Páscoa. As cinzas não têm valor em si mesmas, mas estão postas em contraste com a exuberante luz da ressurreição. Se as cinzas são o resultado de um fogo que se apagou, a luz é expressão de uma chama que ilumina e aquece com o amor, com a partilha e com a solidariedade, os caminhos da vida terrena.

Ao final de nossa existência terrena, ao ouvir a voz da trombeta angelical, o fiel que se santificou na oração, na penitência e na caridade, na consciência de sua imersão na morte redentora de Cristo, há de ouvir solene proclamação: Lembra-te pó, que tu és homem e em homem te tornarás, pois foste criado para viver e não para morrer.