50 anos com Eucaristia


Por DOM GIL MOREIRA - ARCEBISPO METROPOLITANO DA ARQUIDIOCESE DE JF

09/05/2012 às 06h00

A Arquidiocese de Juiz de Fora, completando 50 anos de sua criação como Província Eclesiástica, escolhe o tema da Eucaristia unida à Palavra de Deus para celebrar a feliz efeméride. Durante todo o presente período pascal, as paróquias e comunidades estão refletindo e rezando com textos preparados pela comissão.

A escolha do tema se justifica na convicção de que a Igreja tem como base, centro e cume de sua vida o sagrado mistério da Eucaristia. As narrativas praticamente coincidentes da instituição da Eucaristia nos evangelhos sinóticos (Mt 26, 26-29, Mc 14, 22-25 e Lc 22, 19-20), juntamente com o texto de Paulo na Primeira carta aos coríntios (I Cor 11, 23-26) comprovam a extrema importância da celebração eucarística nas primeiras comunidades cristãs. Tais comunidades não existiriam sem este elemento central e fundante pelo qual podiam perceber a presença real do Senhor ressuscitado na comunidade de fé e atender à sua ordem: ide por todo o mundo e pregai o evangelho a todas as criaturas, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a observar tudo o que vos mandei. Eis que estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos. (Mt 28, 19-20).

Das descrições da Última Ceia, a maioria dos autores afirma ser o texto de Marcos o mais antigo. Porém, há também os que preferem atribuir ao texto de Paulo tal característica, considerando-o como o mais original. Certo é que ambos, bem como os outros dois relatos sinóticos, são reflexos de um ato litúrgico fortemente presente desde o início, revelando a fé dos apóstolos não só no rito eucarístico em si, como na ordem do senhor que disse: Fazei isto em minha memória (I Cor 11, 24-25; Lc 22,19), celebrando não somente o fato histórico, mas o próprio Cristo vivo entre eles. O livro dos Atos dos apóstolos pode indicar quão grande era esta convicção das primeiras comunidades, quando relata: eram assíduos ao ensino dos apóstolos, à união fraterna, à fração do pão, e às orações. (At 2, 42).

À época sub-apostólica, foram muitos os textos dos santos padres, reveladores da centralidade eucarística das comunidades que se multiplicavam, observando características diversas nas ações celebrativas, conforme a localidade, porém conservando sempre intato e invariável o essencial. O mesmo se observa nos primeiros quatro séculos, o período das perseguições, quando os cristãos, mesmo em situações adversas, enfrentando até mesmo o martírio, nunca abandonaram o costume de se reunirem, ao menos aos domingos, para a Santa Eucaristia, muitas vezes em lugares ocultos.

Nesta bimilenar história da Igreja encontramos a expressão eloquente desta centralidade eucarística, seja no estudo teológico, seja nas legítimas formas litúrgicas, seja na devoção popular, seja ainda na arte sacra. Os extremos cuidados que se veem presentes nas ocasiões em que surgem tentativas e sugestões de adaptações litúrgicas a costumes locais, ou a introdução de forma não criteriosa de elementos culturais no rito, provam o interesse que os cristãos sempre tiveram de não permitir qualquer descaracterização da Eucaristia na forma que o Senhor a instituiu, mantendo sempre intactas as palavras dele na Última Ceia e ainda conservando inalterável a estrutura da Liturgia Eucarística em dois grandes momentos inseparáveis, ou seja, a Liturgia da Palavra e a Liturgia do pão e do vinho.