Duas deputadas do Partido Democrata deram uma indicação do sentimento e das contradições que envolvem a solução negociada para o impasse sobre a elevação do teto de endividamento do governo dos EUA, que oscila perigosamente à beira do precipício neste início de agosto.
O lado emocional foi demonstrado pela congressista Eleanor Holmes Norton, que respondeu à pergunta de um repórter dizendo: não penso, só choro. A postura da líder democrata na Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, foi mais política e, de certa forma, realista. Ela criticou o acordo acertado entre as lideranças democratas e republicanas; o plano, disse, faz cortes no orçamento nocivos à saúde econômica do país e vai sacrificar gastos sociais, mas não tira nem um centavo dos mais ricos do país.
A farra do dinheiro fácil que comandou a economia nas últimas décadas permitiu aos mais ricos multiplicar seu patrimônio, enquanto os mais pobres viram seus salários e benefícios diminuírem, embora tenham sido incentivados a incrementar seu consumo aumentando suas dívidas. Um primeiro resultado dessa receita nefasta foi a crise de 2007/2008, que contaminou o mundo e expôs as fragilidades da economia dos EUA, onde o crescimento do patrimônio dos mais ricos esteve baseado nos sucessivos cortes de impostos promovidos desde o governo de Ronald Reagan, na década de1980, na queda da renda dos trabalhadores e nos cortes dos gastos sociais do governo.
Além disso, neste período, o governo dos EUA aumentou como nunca seus gastos militares, que hoje alcançam – segundo analistas independentes – a himalaica quantia de US$ 1,5 trilhão, um valor que corresponde ao déficit orçamentário norte-americano, iguala o PIB (soma de tudo o que é produzido em um ano) do Brasil, e é gasto fundamentalmente nas agressões contra o Iraque e o Afeganistão e na manutenção de 560 bases militares pelo mundo afora, e também de dispositivos militares mobilizados contra os povos, como a 4ª frota que ameaça o Atlântico Sul e a costa brasileira.
Há décadas que os analistas mais argutos denunciam que os EUA vivem do parasitismo, com um nível de consumo e de gastos fora de sua capacidade produtiva. O impasse vivido desde o mês de maio, quando o governo de Washington chegou ao limite de sua capacidade de endividamento (de US$ 14,3 trilhões), ameaçava o mundo com uma crise econômica de gravidade nunca vista. O horizonte de calote podia empurrar o mundo ainda mais fundo no buraco negro representado pela enferma economia dos EUA.
O acordo acertado entre democratas e republicanos, que prevê cortes orçamentários de mais de US$ 2,4 trilhões em dez anos, mas mantém intocados os patrimônios e a renda dos mais ricos, empurrou o risco para o futuro imediato. A crise da dívida dos EUA repete o mesmo roteiro já enfrentado pelos países da América Latina e outros do chamado Terceiro Mundo e que foi enfrentado com ajustes neoliberais draconianos para os povos e os trabalhadores e favoráveis aos interesses dos donos do dinheiro no mundo.










