Devidos lugares
Quando o crítico de literatura Roberto Schwarz escreveu um ensaio em que entendia que as ideias da evolução do pensamento político brasileiro – que deram na formação do nosso Estado, no século XIX, social-liberalismo-escravocrata, em suma – estavam fora do lugar, logo o texto tornou-se, pelo mérito abrangente, um retumbante sucesso nos meios acadêmicos. Mesmo porque, já quase um século depois do rol dos acontecimentos analisados, embora a incômoda persistência dos problemas, não era difícil para os herdeiros se desvencilharem de qualquer vinculação com a herança maldita, bastando, para tanto, como se diz, brincar de mortinho.
Mas o desenvolvimento anômalo desenhado por aquele cenário reverberava pelo século XX e chegou ao XXI. A desigualdade, a negação de direitos, a cidadania regulada, a fraca participação política e a injusta divisão da renda são fatores que deslocam ainda hoje o encaminhamento de soluções perenes, que ficam numa espécie de distopia; isto é, em vez do modelo auspicioso da utopia, passa a existir seu contrário, o totalitarismo de uma ditadura da realidade perversa, contra a qual a maioria da população não tem como lutar.
A periferia brasileira é o público atingido por essa distopia constrangedora. Formada por trabalhadores, a inclusão nas benesses do desenvolvimento social, político e econômico resta incompleta, enquanto a classe média vai a um tipo de paraíso de supermercado high tech, onde devolve o ganho ao grande capital. Os esforços da última e significativa década não apagam um déficit histórico, considerado um dos maiores quando o cenário é mundial, passando inclusive pela terra arrasada africana.
O passivo compromete o futuro, à medida que um trabalhador médio, salário médio, acesso mediano aos direitos e com obediência máxima e obrigatória aos deveres, ao se aposentar, depois de uma vida atribulada, acaba por demandar maior assistência do setor público, visto que não teve cobertura a tempo de prevenir alguns achaques da idade. Com isso, o valor não investido no seu devido tempo no plano das relações privadas na forma de salário, melhores condições de trabalho, assistência médica, entre outros, acabam por cobrar a fatura ao setor público mais tarde, sendo uma transferência de renda indevida, não computada nas contas nacionais, adicionando dificuldades à sustentabilidade do desenvolvimento. Isso acaba por mascarar a verdade sobre a carga tributária, ao menos pelo ponto de vista doutrinário, cuja discussão contribuiria para, se for o caso, colocar as coisas, ideias, contas, existências, etc., em seus devidos lugares.









