Águas de verão


Por GUSTAVO ALVES RATTES

13/01/2012 às 07h00

A história é sempre a mesma: dezembro e janeiro com muitas chuvas, rios transbordando, milhares de desabrigados, pessoas que perdem os móveis, as roupas, as casas, as vidas, a felicidade.

Nada muda! As enchentes acontecem, nossos governantes se mobilizam, liberam recursos emergenciais, mas muitos destes jamais chegam aos seus destinos ou, conforme foi atestado pela mídia, o envio do dinheiro público obedece a critérios políticos, desprezando os técnicos. Esse é o nosso Brasil! São esses os nossos políticos que se dizem sérios!

Por outro lado, o fenômeno das enchentes e suas consequências não podem ser unicamente atribuídos ao Poder Público ou ao excesso de chuvas. O assoreamento do leito dos rios, os fatores climáticos, a invasão dos cursos d’água pelas moradias, a ocupação desordenada das encostas, o descarte do lixo doméstico efetuado de maneira irregular e a crescente urbanização das cidades, que cada vez mais impermeabiliza o solo, são condições agravantes para que as tragédias venham à tona a cada ano, quando chega o período chuvoso.

Nos municípios atingidos pela tragédia das chuvas, podemos observar verdadeiros conjuntos de palafitas invadindo os cursos d’água, transformando as margens dos rios em quintais. Temos ainda a derrubada das florestas e das matas, causando um grave desequilíbrio ambiental. A área, antes ocupada pela natureza, passa a ser moradia do bicho homem. Junto a tantos outros agravantes, inúmeras são as moradias erguidas em solos impróprios, que não estão capacitados para suportar as fundações e, como consequência, temos testemunhado a descida de verdadeiros rios de lama, capazes de soterrar dezenas de habitações.

No caso específico de Minas Gerais, a Zona da Mata foi muito castigada pelas enchentes. Choveu em um dia o que era para chover em 30 dias, e tanta água, em curto espaço de tempo, o solo não consegue absorver. Os rios, por já se encontrarem represados em suas laterais, voltam a ocupar os espaços que antes lhes pertenciam.

A realidade é que as chuvas de verão não são culpadas pelas tragédias previamente anunciadas. O cenário descortina os atores que ocasionam esses fenômenos: o homem, que não respeita a natureza e o Poder Público, que faz vista grossa para a série de irregularidades cometidas pelo bicho homem.

Hoje nos defrontamos com ações públicas direcionadas para obras emergenciais, cujos planos diretores de desenvolvimento urbano não existem ou, se existem, geralmente permanecem somente no papel. Por isso tudo, e mais um pouco, é que falta mais seriedade no país por parte da classe política e mais respeito pelo meio ambiente por parte da população. A responsabilidade é de todos!