O problema do Mariano


Por TADEU SILVA, COLABORADOR

14/07/2013 às 07h00

O título da matéria sobre a entrevista com o presidente do Ibram – Instituto Brasileiro de Museus, Angelo Oswaldo, é sintomático (Novas promessas, Tribuna de Minas, 10/07/13). O rosário desfiado nas justificativas e a ladainha promissora esbarram numa realidade que pode ser contornada: o museu envelheceu. Em vez de contornar a antiguidade, cuidar de sua atualização, seu vigor e sua beleza, amarrou seu fato numa narrativa ultrapassada e obsoleta.

Na década de 1920, o poeta Paul Valéry escreveu o artigo O problema dos museus, em que condenou o que considerava constrangedor ajuntamento de virtudes competindo entre si e desdenhando do sofrido visitante. E lascou, parafraseando La Rochefoucauld, não gosto tanto dos museus. Muitos são admiráveis, nenhum é delicioso. Em seguida, passa à descrição das sensações que o arrebatavam no interior da casa das musas.

A Carta de Princípios da Mesa-Redonda de Santiago do Chile (1972), marco inicial da nova musealidade, sugere aos museus, enquanto condição essencial, uma tomada de consciência de seu papel, o que passa pela mutação da instituição para cumprir os quesitos modernos de território cultural amplo, que possa desenvolver, junto com a sociedade, e, dentro dela, com as comunidades, soluções para os problemas do desenvolvimento técnico-científico e da educação permanente. E completa que a transformação das atividades dos museus exige a mudança progressiva da mentalidade dos conservadores e dos responsáveis pelos museus assim como das estruturas das quais eles dependem.

Integradas, instituição e comunidade compartilham interesses. O fechamento do Museu Mariano Procópio não sensibiliza a população de Juiz de Fora porque sua musealidade não lhe diz respeito, enquanto sujeito do processo histórico-político ao qual a narrativa e o fato museal se referem. A oca grandiloquência imperial e o passado industrial idealizado transformam a instituição em algo como uma utopia regional ultrapassada pela realidade.

O antropólogo Antônio Augusto Arantes, ex-presidente do Iphan, detectou o mesmo distanciamento da população paulistana em relação ao Museu do Ipiranga. E remeteu ao quadro O grito do Ipiranga, de Pedro Américo, sobre a Independência, em que a representação popular foi colocada no canto inferior esquerdo, numa figura totalmente alijada do centro dos acontecimentos. Não é preciso lembrar que a figuração acadêmica do autor está representada no museu juiz-forano pela tela Tiradentes esquartejado, que, inclusive, foi tema da historiadora da arte Maraliz Christo, que analisou seu longo período de esquecimento.

A baixa frequência dos museus costuma ser erroneamente debitada à ignorância, mas a indiferença tem implicações mais profundas, como vimos. E a saída está dada. E é pela periferia do sistema. Da capacidade ou não da comunidade museológica de Juiz de Fora de se modernizar depende o futuro do Museu Mariano Procópio. E isto significa sair do exclusivo biombo da erudição elitizada para o território mais geral e real da cidade, onde vivem os contribuintes.