O que faltou mostrar
Impossível não reagir à publicidade sobre as projeções do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) para os custos com planos de saúde. O levantamento, divulgado pela imprensa, traz o reajuste acumulado nos últimos dez anos, de 38,12%, e calcula que, em três décadas, caso as correções mantenham-se no ritmo, um cliente que investe 7% de sua renda em plano de saúde precisaria destinar 73% a ele. Os cálculos e as projeções, eu presumo pela credibilidade da fonte, estão corretos. Mas faltou dizer que este custo-saúde, que preferimos chamar de custo-doença, é resultado de um modelo falido de atenção à saúde, hospitalocêntrico, focado na doença, tecnicista, mercantil e desumanizado. Além de que não haveria necessidade de planos de saúde se o sistema público deixasse de ser um sonho da Constituição de 1988 e voltasse à realidade.
A extraordinária proposta de integralidade, isonomia e universalidade de um sistema verdadeiramente único teria sido perfeita se acompanhada dos recursos financeiros necessários geridos pelo poder público, em seus três níveis. Não é demais repetir o chavão saúde não tem preço, mas assistência médica tem, e altíssimo! E assim, enquanto nada acontece, o financiamento diminuído do SUS gera caos no atendimento público e repercute diretamente nos planos de saúde que já respondem por 50 milhões de brasileiros. Na cadeia de valor da saúde suplementar (hospitais, clínicas, laboratórios, médicos, indústria e distribuidores e demais profissionais), aqui e na maioria dos países, alguns destes elos estão com normatizações e controles apenas começando, ao contrário do braço regulatório pesado do governo. O mercado já não suporta mais o preço de insumos como órteses e próteses, materiais e medicamentos especiais.
Infelizmente, é fato o rolo compressor da indústria especializada e sua rede de distribuidores, com comissionamentos que envolvem prestadores de serviços e profissionais. A imprensa noticia estes absurdos, e não assistimos a quaisquer providências para coibir tais práticas, a não ser por escaramuças eventuais do Ministério Público e da Polícia Federal, mas sem os resultados esperados. Enquanto alguns segmentos da saúde pública e privada enriquecem, nós médicos, demais profissionais da saúde e clientes pagamos a conta.









