Sobre segurança
Caminhando por nossas ruas e observando algumas residências, sempre sou tomado por grande angústia. Muros cada vez mais altos. Fachadas frias. Uma necessidade extrema de uma família se sentir segura (ou acuada) dentro da própria casa. Sou um homem da meia-idade. Nasci em uma casa construída para atender às famílias de operários da antiga FEEA (hoje, Imbel), em Benfica (Araújo). O parto de minha mãe aconteceu dentro de casa mesmo, pelas mãos das parteiras: dona Joana e dona Penha.
Nossa casa (e todas as outras da rua e de ruas próximas) não tinha portão. Não havia grade na janela. Os muros que separavam as residências eram baixos (não chegavam ao joelho). As janelas de madeira da frente da casa poderiam dormir abertas em tempo de calor. Não havia perigo algum. Se, por acaso, alguém se esquecesse de trancar a porta principal antes de dormir, também não haveria problema. As pessoas se conheciam pelo nome, apelido, ou então sabiam de quais famílias eram. O leiteiro chegava com a carrocinha da cooperativa e deixava a garrafa de vidro na janela. O padeiro ali também deixava o pão. Isso em uma casa sem portão, com a janela aberta e com o muro baixo. Ninguém furtaria. O cachorro mais bravo era um vira-lata na casa do vizinho. Certamente, nunca foi vacinado. Como era bom ficar na varanda, reconhecendo as pessoas ou conhecendo os novos vizinhos!
Ninguém tinha telefone em casa. Na minha rua só duas famílias tinham televisão. Internet, computador pessoal, celular e tantas outras maravilhas eletrônicas que hoje fascinam o interior de uma residência (especialmente, a cozinha) não tinham sido inventadas. O tempo passou (e com que velocidade!) e nos trouxe uma avalanche de transformações.
Veio primeiro o portão de madeira. Com o portão, vieram a corrente e o cadeado. A seguir, janelas e portas precisaram ser fechadas. O muro precisou crescer. Como se não bastasse, foi completado com uma grade de ferro e pontas afinadas. Se o novo muro fosse de tijolos, seria completado em cima com pedaços de vidro presos ao concreto ou se esticaria arame farpado. A janela foi substituída por outra de ferro e uma grade. A porta passou a ser igualmente de ferro, ou madeira maciça, acompanhada da chave comum e tetrachave. O vira-lata (tão comum, tão livre, tão dentro de casa e tão familiar) perdeu sua graça. Passou a habitar as ruas até ser recolhido ao canil municipal. O fiel cãozinho que chegou ainda novo e acompanhou uma infância inteira cedeu seu lugar a um dobermann, rottweiler ou pitbull. Ao novo animal doméstico foi dada a missão de guardar a residência.
As transformações continuam. Ao muro foi incluída uma cerca elétrica. Quem chega à calçada em frente já não tem a visão da varanda, da porta e das janelas. O portão principal passou a ostentar uma placa que se sobressai. Primeiro era: Cuidado com o cão. Depois: Sorria. Você está sendo filmado. Mas agora é: Patrimônio protegido. A tudo isso foi dado o reforço de câmeras de vídeo e alarme para toda a casa. O que ainda nos reserva o futuro? Uma vigilância armada junto ao muro? E pensar que tudo começou quando chegou o portão de madeira!











