O fetiche do vestibular
Após um ano de debates, o Conselho Setorial de Graduação da UFJF deliberou pelo fim do vestibular. A partir de 2012, os candidatos a uma vaga na instituição terão duas opções: o Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que tem o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como prova básica, ou o Programa Integrado Seletivo Misto (Pism). Não foi uma decisão fácil e nem poderia ter sido. Nos seus mais de cem anos, o vestibular enraizou-se na consciência nacional com um selo de segurança e eficiência, por vezes até superior à reputação das próprias universidades. De fato, o vestibular nunca foi um instrumento totalmente seguro e muito menos 100% eficiente. Quem se encarregou de construir esta imagem foi a indústria do vestibular, da qual as próprias universidades fizeram ou ainda fazem parte.
É interessante observar que qualquer proposta de seleção nunca estará ao abrigo de insuficiências e incompletudes. Por conseguinte, o centro do debate deve ser deslocado para o perfil dos postulantes a universitários. Com efeito, o perfil do calouro é definido muito antes de ele ingressar na universidade e é também fator decisivo para definir o perfil do futuro profissional diplomado. Nesta perspectiva, o momento da indispensável seleção para ingresso no ensino superior diz muito sobre o significado de todo o sistema de ensino. Como consequência, a habitual preferência nacional por uma seleção anual, regional, elitista, dramática, pontual e hipervalorizadora de conteúdos curriculares (que, não raro, são esquecidos pelos candidatos 48 horas depois da prova) reflete uma concepção não apenas de universidade, mas de toda a proposta educacional da sociedade.
Ao lado dos incontornáveis problemas de segurança, o grande desafio do Enem/Sisu será não se deixar vestibularizar. Pelas mãos de seus idealizadores, o Enem conseguiu distanciar-se do vestibular, mas ainda não pode ser considerado um instrumento bastante diferente do tradicional exame. De algum modo, a magia do vestibular começou a ser desconstruída, mas a legitimação do Enem/Sisu será certamente resultado de uma acirrada disputa.










