Só falta o gol


Por THEOPHILO CASTELLÕES JUNIOR

22/09/2013 às 07h00

Sábado, 7 de setembro, fim de tarde, começo de noite, saio de casa com o meu kit de sobrevivência (duas blusas, meia de lã, rádio de pilha, papel higiênico) e com o olhar de reprovação de minha mulher vou para o estádio assistir a mais um jogo do meu Tupi, desta vez, um jogo decisivo de mata-mata contra a Aparecidense. O frio era intenso como intensa era a minha esperança de mais uma vitória. Jogo difícil, como sempre. Times pequenos não têm craques, e são todos iguais. Do lateral direito ao ponta-esquerda não existe diferença. As vitórias são muito suadas e conquistadas com muita entrega e suor, mesmo naquele frio.

Naquele sábado, não estava nada diferente. Na verdade, até pior. Ficamos atrás do placar por duas vezes. Precisávamos de uma virada épica. A desclassificação era iminente. Eu, já em pé, acima dos degraus da arquibancada, me preparando para ir embora e, ao mesmo tempo, sem vontade de ir. Sentia muito frio. Acho que é a idade. De repente, o ataque fatal e o chute do Ademilson. Vi a bola entrando e comemorei. Penso que devo ter perdido o sentido por alguns segundos. Vendo a cena dantesca, desabei sentado na arquibancada. Custei a entender o que estava acontecendo. Pensando bem, até agora não entendo.

O que leva um homem a cometer uma atitude daquelas? A resposta é simples: ser humano. Aquele que mata seu semelhante por nada. Aquele que rouba, estupra, agride, infringe, transgride… O mesmo que legisla, julga, penaliza, prende, discrimina, não reeduca. O discurso de valores não praticados. Evoca Deus e Jesus Cristo da boca para fora. Age como o demônio. O mal, o perverso, o errado, a falcatrua é tudo aquilo em que eu não estou no meio. Fez o que fez em nome de alguma coisa, ou a mando de alguém ou por alguém. Tolo. Sua caminhada é solitária. Companheiros de agora o abandonarão mais adiante. O preço é alto.

Agora, falam-se em legislação, julgamento, advogados, tribunais. Deixei o aconchego de minha casa, minha mulher, meu vinho para ver um jogo de futebol do time que amo e fui roubado, ridicularizado, enganado. Nada posso fazer. Não tenho ação nenhuma a fazer a não ser esperar o resultado do julgamento. Espero que haja homens de bem a fazê-lo. Não deixem acontecer uma inversão de valores. Vilões se transformando em vítimas. Façam a justiça. E a justiça, neste caso, é um gol. Procuradores, advogados e juízes: vistam a camisa nove do Ademilson e empurrem para dentro do gol a bola que aquele massagista bloqueou.