Setor afasta risco de desabastecimento


Por GRACIELLE NOCELLI

27/02/2016 às 07h00

Leite tipo C é responsável por 5% da composição da cesta básica (LEONARDO COSTA/26-02-16)

Leite tipo C é responsável por 5% da composição da cesta básica (LEONARDO COSTA/26-02-16)

O preço do litro do leite tipo C aumentou acima da inflação e pressionou as contas dos juiz-foranos neste início de ano. Comercializado com o valor médio de R$ 2,33 em janeiro, o produto encareceu 4,3% este mês e passou a custar, em média, R$ 2,43. O percentual é superior à inflação medida pelo IPCA, que ficou em 2,28% no mesmo período. A tendência é que a alta de preços continue em março. Em comparação com fevereiro de 2014, quando tinha preço médio de R$ 2,26, o reajuste chega a 7,5%. Os valores foram consultados nas pesquisas feitas pela Secretaria de Agropecuária e Abastecimento (SAA) com 53 padarias da cidade.

A variação de preços é reflexo da crise que atingiu toda a cadeia produtiva do leite. Enquanto o custo da produção no campo aumentou, a demanda dos consumidores caiu ligeiramente. Desta forma, o valor pago pela indústria aos pecuaristas se tornou incompatível com as despesas. A expectativa é que a captação do leite seja reduzida e, consequentemente, a oferta para o mercado também, o que pode acarretar em novos reajustes para o comprador final. O presidente do Sindicato das Indústrias da Panificação (Sindipan-JF), Heveraldo Lima, confirmou que a oferta diminuiu, o que acarretou na elevação dos preços. “Acredito que não corremos o risco de desabastecimento, mas o aumento dos custos da produção fez com que produtores reduzissem a quantidade oferecida ao mercado.”

Incomum

O economista e responsável pela pesquisa da SAA, Paulo Marcos Barbosa Guedes, considera a situação incomum para o período. “Normalmente, essa é uma época em que os valores caem, pois a produção está favorecida, mas vivemos um momento atípico por causa da crise.” Ele destaca que, entre janeiro e fevereiro do ano passado, o leite ficou mais barato. “A tendência é que a alta de preços continue, já que não vemos alterações no cenário econômico.”

Na composição de preços da cesta básica regional, o leite é responsável por cerca de 5% do valor total (R$ 328,44). Na avaliação de Guedes, o percentual está dentro do esperado. “Na média de quantidades e valores estipulados pela cesta, o leite não é o principal produto que pressiona os custos. Um reajuste nos preços da carne bovina e do pão francês, que representam entre 17% e 20% da cesta, são mais preocupantes”, analisa. “No entanto, sabemos que a inflação tem impacto individual, há famílias que consomem mais leite e serão mais afetadas.”

Custo de produção sobe 18% em um ano

Os dados da Embrapa Gado de Leite mostram que o custo da produção no campo aumentou 4,6% em janeiro, conforme o IPC Leite. Este é o maior registro desde agosto de 2012. No acumulado dos últimos 12 meses, o percentual chega a 18,5%. As despesas com insumo e mão-de-obra foram os principais itens que pressionaram o indicador, conforme o chefe-geral da Embrapa, Paulo do Carmo Martins. “Cada propriedade é afetada de maneira diferente, em função da proporção de uso desses recursos. Mas o fato é que a despesa cresceu, em média, mais do que o custo de vida e reduziu o poder de compra do produtor.”

Paralelo ao aumento, os pecuaristas enfrentam queda do valor pago pelas indústrias. “Devido à piora do ambiente econômico, em Minas Gerais, o valor chegou a R$ 1,09, o menor já registrado desde a criação do índice, há dez anos. A expectativa é de um cenário ainda adverso de rentabilidade e oferta do leite. A captação está recuando a uma taxa anual de 2%, e o consumidor reflete a retração da economia brasileira, desacelerando a demanda por lácteos”.

Participação de Minas

Juiz de Fora é o município com maior produção de leite na Zona da Mata. No ano passado, foram captados 217.437 litros. Em seguida estão Muriaé, Cataguases, Ubá e Ponte Nova, respectivamente. A região possui posição de destaque no estado, sendo a quarta maior produtora. Em 2014, foram 778,3 milhões de litros de leite produzidos, o que corresponde a 8,3% da produção estadual. “O setor é uma importante fonte de geração de emprego e renda”, destaca Paulo do Carmo. Minas Gerais é o principal estado produtor de leite do país, responsável por 26,6% de todo o mercado nacional, segundo informações do IBGE. “Um em cada quatro litros produzidos no Brasil é mineiro.”