A impugnação da candidatura de Alberto Bejani para vereador conferiu, para muitos, a sensação de que fomos salvos pelo gongo da Justiça Eleitoral. Desde sua renúncia, em 2008, Bejani vinha ensaiando um retorno. A despeito de ter sido preso duas vezes em decorrência de um escândalo de malversação do dinheiro público – relacionado ao exorbitante aumento no preço do transporte coletivo -, o radialista continuou falando, também na política, mostrando-se um caso exemplar do que de mais tradicional temos: carismático e despreocupado com a fama ruim que o cerca nos meios que nele não votam, criou uma espécie de nicho eleitoral em Juiz de Fora que dificilmente desaparecerá.
Sim, minha previsão é óbvia: caso a Justiça não tivesse, com base na Lei da Ficha Limpa, impugnado sua candidatura, fatalmente ele seria eleito. Ou alguém duvida? O fato nos convida a pensar o processo democrático brasileiro, na sua institucionalidade e, sobretudo, na cultura política do eleitor.
Ainda que a ficha limpa seja uma conquista, por impedir que políticos em exercício renunciem para escapar da cassação, na qualidade de lei, ela é, como todas as outras, passível de interpretações. Não por acaso o advogado de Bejani disse que ainda não acabou. Seu argumento, que encontra precedentes pelo país, é de que não foi protocolado à época um pedido de cassação do ex-prefeito, mesmo porque Bejani se antecipou aos fatos renunciando.
Em 2008, a lei não existia. Como poderiam os vereadores imaginar que tal artimanha jurídica seria mobilizada? Não poderiam. Ainda que as instituições tenham progredido, especialmente em sua racionalização e em mecanismos de controle, persistem possibilidades de interpretação legal com as quais não podemos fazer nada. Aliás, podemos sim. Podemos votar!
Chego, com isso, ao tema que interessa: a cultura política. Pergunto: por que cargas d’água o slogan rouba, mas faz e outros igualmente perversos ainda elegem gente neste país? Creio que é nisso que temos que nos concentrar a partir de agora, concomitante ao incremento institucional da democracia, é claro. Senão, dependeremos sempre do gongo da Justiça a nos salvar. E sem querer colocar medo em ninguém: ele pode falhar.
