Temos muitas obrigações como cidadãos — e não defendo aqui a ideia de que devemos deixar de cumprir com elas. No entanto, o meu questionamento recai sobre os encargos do Estado. Não falo de governo x ou y, mas daquilo que está na Constituição como dever do Estado e das responsabilidades que assumimos ao pagar taxas e impostos elevados a esse mesmo Estado — muitas vezes com retorno precário, migalhas de serviços ou, pior, sem serviço algum à população. Sei que sem Estado seria ainda pior (longe de mim defender o Estado mínimo), mas é imprescindível cobrar governantes por responsabilidade e exigir que o cidadão saiba ser fiscal.
Viajar de férias virou sinônimo de medo e insegurança em nosso país. Em Minas Gerais, então, nem se fala — somos o estado mais cortado por rodovias no território brasileiro, muitas delas tomadas por buracos e sobrecarregadas com caminhões, bitrens e carretas. Estradas onde o que tem ocorrido é o salve-se quem puder. Em muitos casos dá para dizer que governos, de forma geral — e especialmente o de Minas — deixaram o cidadão desprotegido em suas dezenas ou centenas de quilômetros.
Um pneu furado em uma BR-267 esburacada e violenta, como no trecho entre Bicas e Leopoldina, transforma-se em verdadeiro momento de terror. Passei por isso logo no início da minha viagem de férias em janeiro: um pneu furado após o carro cair em uma cratera em curva acentuada, sem acostamento, sem sinalização adequada foi motivo para medo e estresse. E agora? Chama quem? Pedimos ajuda a quem? Não há número de corporação nas placas, nenhum posto policial por perto, nada. A rodovia é responsabilidade federal ou estadual? E ainda temos muitos e muitos buracos pela frente. A falta de segurança, de acostamentos e de apoio se repete em outra viagem. Desta vez, na MG-353. O posto policial na saída de Grama não tem mais policiais. O mato toma conta em vários trechos. Mas radares estão ali, para “vigiarem” quem ultrapassar a velocidade permitida. Está certo, tem que ter mesmo, mas e a contrapartida do Estado?
Em rodovias privatizadas, o medo se repete. Pode até ter apoio para casos de defeitos de veículo ou acidentes. Mas há muitos trechos onde nos sentimos assaltados. O serviço em muitos casos é fraco, o asfalto ruim e tudo uma verdadeira bagunça, como é o caso do segmento em obras sem fim entre Manilha e Magé, no estado do Rio, região muito usada por nós que moramos em Juiz de Fora e buscamos refúgio na Região dos Lagos. Ali a cobrança é de mais de R$ 20 na rodovia BR-493, administrada por concessionária, mas com uma insegurança imensa, sem orientações de funcionários. Na BR-040, o pedágio disparou, custando R$ 21 para carros de passeio, mas nada melhorou. Pelo contrário, a serra continua amedrontadora e ainda com buracos no asfalto.
O que tem acontecido com nossos governos? Tudo que é público tem sido sucateado até não ter mais jeito. Depois vendem ou passam concessão para a iniciativa privada ganhar rios de dinheiro, sem fazer as obras prometidas, e devolvem ao Estado com prejuízo para a população e sem cumprir o prometido. A gente se sente impotente, roubado, ameaçado o tempo todo. E aí, não há goveno que dê jeito. Mas o entreguismo para a iniciativa privada é de assustar. Primeiro deixam sucatear, depois entregam para empresas. Enquanto o Estado míngua e deixa de prestar serviços básicos, inclusive de transporte, nós passamos a viver cada vez mais na corda bamba. É de fazer chorar. A gente não sabe a quem pedir socorro. Nessas horas, eu me lembro da letra da música “Acorda Amor”, do Chico Buarque. O contexto era outro, mas será que só nos resta agora apenas um “chame o ladrão”?
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