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Mais do que nunca, superar a polarização

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As urnas falaram no último domingo, 25 de outubro. Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, numa virada inédita em relação ao primeiro turno. A diferença, de pouco mais de quatro milhões de votos, confirma o que já sabíamos: o país está dividido quase ao meio. Mais do que nunca, é hora de superar a polarização.

Não se trata de abolir as divergências. Ideias diferentes são legítimas e até salutares numa democracia; é no confronto de visões que uma sociedade se corrige e amadurece. O problema começa quando o espaço público deixa de ser lugar do entendimento e se torna o reino opaco das paixões irracionais, em que o outro já não é adversário a ser ouvido, mas inimigo a ser destruído.

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O espaço político é, por natureza, espaço da razão partilhada. Nele, um lado pode discordar do outro, e do embate honesto pode nascer crescimento mútuo: quem argumenta é obrigado a rever suas certezas, e quem escuta descobre no outro um pedaço da verdade que lhe escapava. Isso vale para todos. Mas, se ninguém estiver disposto, ou se uma das partes recusar um mínimo de abertura, não comprometemos apenas a política: comprometemos o próprio ser humano que somos.

Porque somos seres de transcendência. Há em nós uma abertura constitutiva ao Bem, com B maiúsculo, que a linguagem religiosa chama de Deus. Esse Bem nos atrai à convergência: leva-nos a vencer a opacidade, os preconceitos e as paixões, numa aproximação constante e assintótica à luz, isto é, ao reconhecimento da dignidade humana, da dignidade de cada pessoa. Nunca chegamos plenamente; mas é caminhando nessa direção que nos tornamos mais humanos.

É para a pessoa que existe a política, arte do bem comum. Cada pessoa e todas as pessoas são o seu fim. A política existe para que construamos um chão comum em que todos possam pisar com dignidade e, a partir dele, buscar o próprio desenvolvimento e a própria formação, como pessoa, como ser de relação com o mundo, com os outros e com a transcendência.

Vencedores e vencidos de domingo habitam o mesmo chão. A vitória não autoriza a arrogância, nem a derrota justifica o ressentimento. Ao governo eleito cabe governar para todos; à oposição, fiscalizar e propor com firmeza e lealdade; a cada cidadão, recusar o ódio como linguagem.

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As religiões têm aqui uma responsabilidade singular. Em vez de inflamar trincheiras, deveriam apontar para esse horizonte que nos acomuna a todos e nos torna mais abertos e menos raivosos. Quem crê num Deus que é o Bem não pode fazer da fé uma arma contra o irmão. Que o fim desta eleição seja o começo de outra conversa, menos ruidosa e mais verdadeira, em que voltemos a nos reconhecer como membros de um mesmo povo.

* Elílio de Faria Matos Júnior é presbítero e professor de Filosofia e Teologia.

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