Estivesse consolidada no imaginário das aspirações locais, a Praça da Estação estaria mesmo idealmente posta em nossa cartografia simbólica, que baseia a cidade real. Retalhada, remexida, reformada, requalificada, revitalizada, restaurada, de quando em quando, o Frankenstein estilístico gera vazio urbano singular. Esvaziada de sentido, a inteligência e a competência exercitam suas qualidades técnicas sobre o espaço indefeso. O cotidiano pujante que a Praça da Estação ostenta na realidade, basta reparar, é tapado pelo tapume discursivo. É o simulacro resultante da cidadania apenas simulada, a exclusão social que permanece, vai e volta.
A movimentação de passagem é a energia vital dos empreendimentos populares que resistem no comércio ordinário, corredor que perpassa a Getúlio Vargas e a Praça do Riachuelo, a próxima vítima do olhar controlador, que o arquiteto Paulo Afonso Rheingantz, olhando a Baía da Guanabara, acusou enquanto miopia mimética importada que grassa na arquitetura e urbanismo pátrio. Macaquice, diria um gaiato cachaceiro sob a marquise do exemplar Edifício Rio de Janeiro. Diria também, que a Rio Branco é a sala, e a Getúlio e adjacências, a cozinha.
O ponto alto do mimetismo brasileiro são as palmeiras imperiais, um clichê ou totem nos trópicos ensolarados. Esse hibridismo impositivo é o condão organizador do espaço e faz com que suas premissas conceituais (desvitalizar, rolar) se sobreponham à função original e histórica. A memória social vê-se perdida numa espécie de luta conceitual entre o nacional e o importado. E banco, anticidadão que seja, houvesse no projeto árido quem iria sentar-se ao sol. A demofobia detesta gente conversando nas ruas.
Voltando à praça, as intervenções de quando em quando não obedecem a um caminho ou a um método, não dialogam. Virou presa de modismos. Uma senhora televisiva quase da mesma idade, observa-se, tão retalhada quanto, talvez Pitanguy, talvez Dr. Rey, deixa à mostra um critério nada duvidoso de busca de um rejuvenescimento sob a base figurativa pessoal. A matrona juiz-forana não, pois, vitimada pelo oportunismo estetizante, encobre, com sua balbúrdia estilística, qualquer inteligibilidade do não iniciado, o público em geral. E atenção: desinteligência é ignorância…
Portanto, este escrito é apenas o que o antropólogo José Reginaldo Santos Gonçalves chama de retórica da perda, da memória, no caso, em meio à progressiva miscelânea memorial que vitima a integridade do bem, o dano irreparável que subjaz em sua memória, com a lembrança da lambança patrimonial regressiva do referido sítio, onde o senso ou tino comum desatina. O que desequilibra de vez a equação da destruição criadora, que Françoise Choay percebeu no sujeito da alegoria patrimonial.
