Ícone do site Tribuna de Minas

Chocolate branco

PUBLICIDADE

A bombástica vitória do sistema de cotas da UnB no Supremo Tribunal Federal, há algumas semanas, não teve qualquer repercussão em Juiz de Fora. Por exemplo, no portal da UFJF, presumidamente interessada no assunto que lhe diz respeito, nem uma nota. Tal fato corrobora minha opinião de sequestro institucional da reivindicação do Movimento Negro, que, de possível conquista, foi transformada em concessão. Conquistas são imexíveis, já concessões…

A goleada, ou chocolate, de acachapantes 10 x 0 demonstrou somente a pertinência do sistema, pertinência esta posta desde a primeira metade dos anos de 1990, quando a questão das reparações entrou em pauta. Num crescente, ela desaguou na sistemática específica das cotas, uma leitura realista da educação como ativo econômico. A devastadora leitura da realidade exclusiva levou de roldão as resistências que se tornaram meramente fugidias, abandonando a rigidez epistemológica pela arenga tipicamente protelatória, como no caso do manifesto pífio entregue ao Congresso (113 cidadãos antirracistas contra as leis raciais), quando houve a discussão do Estatuto da Igualdade Racial, assinado por personalidades como Caetano Veloso, Ruth Cardoso, Eunice Durhan, Ferreira Gullar, Peter Fry, Yvonne Maggie etc.

PUBLICIDADE

O movimento favorável rebateu (manifesto em favor da Lei de Cotas e do Estatuto da Igualdade Racial), evocando a literatura sobre o tema e, aos 113 do manifesto citado, contrapôs mais de mil assinaturas, com nomes como Elisa Larkin Nascimento, Abdias Nascimento, Nei Lopes, Sueli Carneiro, Augusto Boal, Ivanir Alves dos Santos, Jurema Werneck, Petronilha B. G. e Silva, Kabengele Munanga, Iolanda de Oliveira, Muniz Sodré, Beatriz Alves dos Santos, Eduardo Viveiros de Castro, Oscar Niemeyer, Francisca Pareci, Otávio Velho, Emir Sader, José Reginaldo S. Gonçalves, Fábio Konder Comparato, Paulo C. Duque-Estrada etc.

A UFJF não aparece nos arquivos. Vai aparecer quando a discussão sequestra o original teor da reparação: denunciar e remover a interdição à pessoa negra, patente na universidade exclusivamente branca. Percebendo-se desnudo e correndo o risco de ser atropelado pela realidade exposta da discriminação intracampi, apressou-se o sistema universitário em acolher e modificar o teor da política reparatória, ao contrário do viés citado, que denunciava, inclusive, a manipulação do mérito, sua decorrência específica na exclusão educacional.

Assim, nenhum paradigma racista foi derrogado, e o parâmetro democrático-racial adaptou seu conceito ao recorte cotado e recolhe os negros egressos do sistema de forma quase assistencialista, cujo pano de fundo é o favor, a esmola, a condescendência, em dissimulação. Uma postura realisticamente recalcitrante na discussão geral, que serviu para sustar a reflexão e retirar os campi do debate, escondendo seu teor racialista. Manteve-se, assim, o status geral da pessoa negra nos moldes de Casa grande e senzala, e os negros cotistas não passam, nessa perspectiva, de uma forma atualizada e adaptada de escravo doméstico em processo civilizatório de polimento e, pior, ilustração, qualidade compatível com sua presumida subumanidade. Reverter tal condição é a alternativa posta.

Sair da versão mobile