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Voar

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Lá pelos idos de 1945, na cidade de Raul Soares, onde passei minha infância, fiquei sabendo que ia pousar na fazenda do Sodré um avião da força aérea. Parti para lá e presenciei o pouso em um campo de terra improvisado da fazenda. Por lá fiquei até a decolagem, impressionado com a novidade. Prometi aos meus pais que um dia tudo faria para pilotar um avião. Fiz um curso de datilografia na Escola Remington, ganhando uma medalha como aluno mais veloz na tecla. Fui trabalhar na Embaixada Americana em Raul Soares, cujo objetivo era acompanhar, em São João do Matipó, cidade próxima a Raul Soares, a extração de mica, produto que era destinado aos Estados Unidos para ser empregado na fabricação de material para as forças armadas.

Fiquei trabalhando por lá um ano e meio e após fui para o Ginásio Raul Soares trabalhar na secretaria. Consegui me aprimorar na grafia com as letras modernas e bonitas. Fazendo um trabalho manuscrito, fui surpreendido pelo inspetor federal do colégio, Dr. Manuel Lamas de Andrade, que residia em Juiz de Fora. Observando meu trabalho, disse-me: Com esta letra, vai para Juiz de Fora que arranjo um serviço para você. Não deu outra. Parti para Juiz de Fora, cidade que amo e adoro, para prestar serviço militar. Dr. Lamas ajudou-me bastante, empregando-me no Colégio Bicalho, cujo salário favoreceu-me nos estudos. Do Bicalho fui para o serviço militar. Solicitei inscrição para prestar provas na Base Aérea de Santa Cruz como piloto da força aérea militar. Comigo foi mais um candidato e colega, Itamar Franco, que se tornou mais tarde o mais querido presidente da república. Nas provas fomos reprovados em uma matéria. Itamar se dedicou ao curso de engenharia, e eu segui meu destino completando o curso superior.

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Anos mais tarde, já formado e, depois, casado, matriculei-me no Aero clube de JF para fazer o curso de piloto. As instruções eram ainda ministradas no campo de terra e grama em Benfica, entre árvores e plantação de bambus. Recebi os primeiros e últimos ensinamentos para piloto com Odair Ribeiro, o instrutor com mais horas voadas em todo o mundo. Odair Ribeiro merece um livro à parte pelas peripécias e capacidade para ensinar a voar.

Com a graça e a bondade de Deus, formei-me piloto privado e depois piloto comercial. Adquiri experiência me inteirando nas minhas viagens sobre o mercado de aço, e o destino levou-me para ser cliente e distribuidor da antiga siderúrgica Mendes Júnior, Belgo Mineira e enfim ArcelorMittal, que hoje é a maior produtora de aço do mundo. Diante do volume e prestígio da minha empresa em todo o território nacional, e crescendo cada dia mais agora, já com a ajuda e presença dos filhos, fui obrigado a adquirir uma aeronave, em princípio monomotor, para posteriormente pilotar um bimotor. Numa época que o interurbano era difícil e as estradas sinuosas, o avião para minha empresa foi uma dádiva do destino. Quando para se chegar a uma usina siderúrgica teria de levar de seis a sete horas de carro, o avião levava uma hora. A terra vista de cima é mais bela quando estamos voando. Voando você fica mais perto de Deus, segundo as palavras do piloto francês Saint-Exupéry em seu livro O pequeno príncipe. Sabemos que vivia feliz quando estava voando até desaparecer no Mar Mediterrâneo em 1944.

Voar me proporcionou a oportunidade de fazer dezenas de amigos, além de contribuir no desenvolvimento de minha empresa. Enfim, pela oportunidade de ter avião próprio com trabalho e humildade, minha empresa se tornou uma das principais distribuidoras da maior usina siderúrgica do mundo que é a ArcelorMittal. Vamos voar e até breve.

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