É chegada a hora de revermos alguns marcos na atuação do médico. Durante muito tempo, o profissional esteve essencialmente associado à cura de doenças, e essa ainda é uma vertente prioritária no dia a dia. Dos anos 1970 para cá, discutem-se muito o papel e a função do médico na sociedade, uma vez que o seu antigo perfil, apenas assistencial, não atende mais aos desafios da sociedade contemporânea, pós-moderna ou qualquer coisa que o valha.
O pensamento sistêmico se impõe como necessidade de sobrevivência da raça humana no planeta. Em meio à crise social e turbulenta, em vários países, onde a população resolveu dar um basta em relação ao abuso de poder e à podridão do mesmo pela corrupção, encontramos o grande drama ambiental que o planeta está vivendo.
Por força de nosso estilo de vida e da base da sociedade estar voltada para a economia, parece inexorável que tenhamos que viver de modo escravagista, disfarçado de emprego, com carga de trabalho semanal intensa, nos afastando de nossas famílias e crianças, como se fôssemos burros de carga. Esse sistema satisfaz à concentração de riquezas, mas não satisfaz ao bem-estar da civilização, além de danificar o meio onde vivemos.
O médico, como ator social de elevada relevância na opinião pública, deve arregaçar as mangas e mudar a sua visão de mundo, sair da zona de conforto pautada na tecnologia e nos elevados gastos com a saúde. E para isso é crucial interferir na formação profissional. É muito importante investir na ampliação da visão do médico para que tenha condições de refletir sistemicamente e com eficiência sobre os desafios impostos pelo nosso estilo de vida. Algumas faculdades de medicina estão modernizando os seus currículos, muito influenciadas pelas diretrizes curriculares do Ministério da Educação, com o intuito de formar esse profissional de que precisamos. Mas ainda é pouco para o que o Brasil necessita.
Os fenômenos sociais e ambientais afetam diretamente a saúde dos indivíduos e necessitam de uma abordagem sistêmica. Sendo assim, um único setor não pode arcar com a responsabilidade de enfrentar esses desafios isoladamente. É crucial a integração entre diferentes disciplinas e profissionais para se analisarem e se enfrentarem os obstáculos que estão colocados. Não se pode depositar toda a responsabilidade no médico, que hoje possui uma visão limitada dos problemas de saúde por conta de sua formação restrita à doença.
