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O Papa do nosso mundo

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Até a década de 1970, a Igreja Católica reinava absoluta no Brasil, época em que 91,8% da população se declaravam católicos. A partir dos anos de 1980, essa confortável situação começou a mudar, com a emergência das igrejas evangélicas de corte neopentecostal. Atualmente, conforme o último Censo do IBGE (2010), os católicos representam 64,6% da população religiosa brasileira. Para além do crescimento do número de evangélicos, outros fatores contribuíram para essa queda. Não há como negar o distanciamento do discurso proferido pela grande maioria dos padres das reais demandas dos fiéis. Enquanto estes buscavam consolo para suas dificuldades face a uma sociedade cada vez mais competitiva e, por consequência, injusta, os padres mantinham o mesmo diapasão.

O resultado desse descompasso veio gradualmente, e o estrago só não foi pior graças à Renovação Carismática Católica, que, numa contraofensiva às igrejas neopentecostais, também tratou de erguer as mãos dos fiéis, embalados pela canção de Marcelo Rossi. Juntamente com outros padres-cantores, este ícone do catolicismo na atualidade revigorou a Igreja Católica, ao arrebanhar multidões para os seus show-missas, exercitando assim uma parte expressiva do que a socióloga Brenda Carranza denomina de catolicismo midiático. Todo esse esforço para manter a Igreja Católica como a maior denominação religiosa do Brasil parecia estar caindo por terra – ou pelos céus -, em grande medida também pelo estilo conservador e sisudo do alemão Joseph Ratzinger, que paradoxalmente sucedeu o carismático Karol Wojtyla.

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Num gesto inusitado e devido a razões não totalmente reveladas, o Papa Bento XVI renunciou em fevereiro deste ano. O que, sem dúvida, foi um dos momentos mais críticos para o catolicismo resultou em algo positivo. A fumaça branca que sinalizou a eleição do novo Papa, o argentino Jorge Mario Bergoglio, exalou um ar de renovação de fato. Deixando um rastro de simplicidade e generosidade por onde passa, Papa Francisco se expressa com uma linguagem bem mais adequada ao mundo atual. E dá claros sinais de estar imbuído da missão que outrora teria sido delegada a São Francisco de Assis: reconstruir a Igreja Católica, ora em ruínas.

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