Acompanho com certa perplexidade o movimento de pessoas nas ruas demonstrando indignação com uma diversidade de problemas no Brasil. Vejo que essas pessoas são, em sua maioria, milhares de cidadãos jovens reivindicando melhorias nos serviços públicos e criticando as distorções na forma de gestão pública em todos os níveis de governo. Este segmento da população que vai às ruas faz parte de uma geração muito jovem que nasceu após as grandes manifestações pelas Diretas Já.
Esta juventude nasceu, cresceu e chega à fase adulta durante um período onde dois importantes partidos chegaram ao poder central do país: PSDB (oito anos) e PT (dez anos). Os tão falados protagonistas juvenis, presentes em diversos fóruns de discussão, agora aparecem de uma forma inusitada para a imprensa, maioria dos atores políticos, e demais grupos de interesses do país. A insurgência dos jovens manifestantes traz uma pauta de reivindicações difusa, mas com assuntos que fazem parte de uma agenda concreta de toda a população brasileira, e isto assusta muito algumas lideranças.
Para iluminar a nossa análise atual, relembro que as redes sociais foram capazes de mobilizações importantes e históricas em nações oprimidas por regimes autoritários, como por exemplo, a Primavera Árabe, como é conhecida internacionalmente uma onda revolucionária de manifestações e protestos que vem ocorrendo no Oriente Médio desde o final de 2010. Devemos destacar, por algumas semelhanças, o Ocupe Wall Street (Nova York), que é um movimento e protesto contra a a desigualdade econômica social no Governo dos Estados Unidos iniciado em setembro de 2011.
Vejo algumas análises precipitadas de militantes de outrora comparando a conjuntura atual com momentos ruins da nossa história recente. É natural que as comparações aconteçam por aqueles que já vivenciaram um passado de autoritarismo, perseguição, tortura e morte. Mas acho que há somente semelhanças. É necessário que nós façamos uma autocrítica sobre a forma de se fazer política nos últimos 20 anos. Será que as organizações da sociedade civil e os partidos políticos, que atuam no campo democrático-popular, desenvolveram uma metodologia de politização correta? Será que o exercício do poder, nos diferentes níveis de governo, enfraqueceu o trabalho de base na conscientização da nova geração? Será que a desqualificação política das atuais manifestações populares é o discurso mais apropriado para o momento?
