Não dá para esquecer! Já se passou quase um mês, e a sociedade brasileira continua de luto profundo. Foi cravado no coração de nossa gente uma flecha de fogo, queimando, dilacerando e consumindo as nossas almas, os nossos espíritos e as nossas mentes.
Um sentimento avassalador de culpa, vergonha e perplexidade tomou conta de todos nós ao nos depararmos com esse show pirotécnico de irresponsabilidades e sandices que resultou numa tragédia macabra, indecorosa, sinistra: um incêndio que devorou vidas e sonhos, um monumento à ganância, à ignorância e à estupidez.
Uma pergunta se faz necessária: que espécie de animal somos nós, os humanos? Para onde caminha a humanidade? Para o caos, a degradação ou a barbárie? Podemos sonhar com um futuro melhor? Ou incendiaremos o planeta numa festa derradeira, regada à luxúria, a poder e a dinheiro? Mas não para por aí. Aqui mesmo, na porta de nossa casa, há uma outra tragédia rotineira assombrando a sociedade juiz-forana, que parece ignorar, mantendo-se calada, insensível e indiferente às mortes noticiadas pela Tribuna, revelando, em 2012, os assassinatos brutais de um número inaceitável de adolescentes na cidade.
Em 2013, a carnificina continua, com vários assassinatos desses garotos, que habitam o subsolo do crack, chamados pelo psicólogo e escritor Içami Tiba de anjos caídos: neste caso específico, em sua grande maioria, são adolescentes carentes, oriundos de famílias de baixa renda que, praticamente, salvo as exceções, foram educados para usar drogas, cooptados pelo tráfico, que se apresenta, nessas comunidades, como possibilidade sedutora de ascensão social, afirmação de poder, prestígio e respeito, conquistados através da violência desmedida empregada nas batalhas entre as diversas gangues, distribuídas por várias zonas territoriais na cidade.
As mortes acontecem sucessiva, progressiva e assustadoramente, sem nenhuma resposta à altura. Essa tragédia silenciosa, que mata os nossos jovens marginalizados, muito em breve ultrapassará o número emblemático das 239 vítimas do famigerado incêndio de Santa Maria. Se não reagirmos com veemência e indignação, se não nos organizarmos enquanto sociedade que preza, protege e ama os seus semelhantes, pagaremos um preço muito alto.
Por essas tragédias, que poderíamos evitar e, porquanto, também somos todos corresponsáveis, só nos restará a súplica: Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós!
