Incompetentes adormecidos ou ideólogos preguiçosos, prontos a mascarar maus resultados na administração escolar com perversos índices sociais de um povo pobre, deveriam com urgência debruçar-se sobre edição recente de Veja (06/04) e verificar como escolas situadas em áreas paupérrimas e dominadas por criminosos conseguem exemplos admiráveis de superação das adversidades.
No último Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), avaliação do Ministério da Educação, a média nacional registrada foi de 4,6. No entanto, a Escola Municipal Paula Fonseca, localizada na favela Jorge Turco, na Zona Norte do Rio de Janeiro, região que produz elevados índices de homicídios no estado, e a Pablo Neruda, também da rede municipal carioca e encravada em um grotão da Zona Oeste, dominado por milícias (bandos policiais e de ex-policiais que atuam na ilegalidade em favelas do Rio), conseguiram figurar no seleto grupo composto daqueles 2% de escolas públicas brasileiras que obtiveram as melhores notas no referido levantamento.
Se essas escolas contam com os mesmos recursos destinados a todas as unidades da rede municipal, o que têm elas de diferente em termos de resultados? Nada mais, nada menos do que administração competente e comprometida com a sorte de seus alunos. Falando à referida revista, a professora Célia Tavares, 72 anos de idade e há 26 no cargo de diretora da Paula Fonseca, assegura que, além de ensinar, nosso trabalho inclui transmitir valores básicos a crianças vindas da extrema miséria e lares desestruturados. Ela própria se encarrega de visitar os pais para tirar dúvidas e falar das constantes dificuldades de aprendizado enfrentadas pelas crianças. Mais do que isso, ela tenta impedir que seus alunos enveredem pelo crime. A maioria deles vem de famílias ligadas ao tráfico de drogas e, não raro, até já ingressaram na marginalidade.
Por sua vez, a professora Maria Joselza, há 23 anos na direção da Pablo Neruda, ao identificar hábitos que devem eliminar a habitual e nociva condescendência, é rápida e prática em sua abordagem: Num lugar como este não há tempo a perder com incompetência. Exemplos que se ajustam, enfim, ao que prescreve o economista Cláudio de Moura Castro, articulista de Veja e renomado especialista em análise educacional do país, para quem as melhores escolas do mundo são lideradas por gente hábil na tarefa de criar um ambiente estimulante para o aprendizado.
Os dois exemplos não absolvem políticos e administradores públicos brasileiros, que ignoram a educação e insistem em não valorizar os bravos profissionais que se dedicam aos ensinos fundamental e médio (a começar pelo salário aviltante e pelas instalações inadequadas), mas deixam claro que, quando a escola é dirigida por gente comprometida com o trabalho e o propósito de conhecer os alunos e aproximar-se deles, os resultados sempre são melhores. Ufa! As professoras Célia e Joselza nos fazem respirar melhor e nos tornam menos céticos em relação à sorte das crianças brasileiras pobres.
