Há algumas décadas, estava eufórico com a recente conclusão do curso de engenharia, depois de cinco longas e penosas séries da faculdade. Estava abraçando a profissão que sempre desejei com muita fé e entusiasmo. Nessa mesma ocasião, um profissional, de que não me lembro mais, advertiu-me: cuidado, garoto, a partir da sexta série é que é as coisas ficam mais difíceis. Até aí eu entendi, pois isso na época era um jargão muito empregado para os recém-formados. Sabia o que significava. Referia-se sobre as dificuldades advindas do exercício da profissão. Entre um e outro conselho a mais desse veterano profissional, continuou ele: a engenharia é uma só, mas, despercebidamente, ela está tomando rumos perigosos e que pode transformá-la em duas engenharias. A primeira é aquela que você está abraçando agora: representa a ciência que se dedica a transformar os recursos da natureza em benefício para o ser humano. A segunda engenharia é a da política e do comércio. Uma deveria estar acoplada à outra, mas nem sempre é assim, e cada vez se distanciam mais, completou.
Com essas últimas palavras, dei-me por satisfeito, apesar de, na época, não entender bem o que ele queria dizer com aquela observação. A princípio, interpretei que, em um país capitalista como o nosso, nada mais justo e natural que obter o lucro sobre alguma atividade. No caso, vem do comércio de compra e venda de uma edificação, de uma obra encomendada por um órgão público para o benefício de todos, e assim sucessivamente. Quanto à política, interpretei como sendo a macroeconomia adotada pelo Governo que faz com que o próprio Governo, os empresários e os cidadãos comuns planejem e ajam segundo ela. Com o passar do tempo é que vi o sentido mais amplo das duas engenharias.
Os acidentes que vêm acontecendo nos últimos anos me fizeram entender o que já me tinha sido passado há anos. É o somatório de fatos que está levando ao descrédito da engenharia o público em geral aqui no Brasil. Com toda a tecnologia existente hoje, os prazos de entrega das obras têm de ser reestudados. Data de entrega de obra não pode ser diminuída por ganância, e obras públicas não podem ser finalizadas com base nos prazos de campanhas políticas. Sugiro que deveria existir algum mecanismo para exigência de fiscalização. Assim como a prefeitura exige, por exemplo, um alvará para construção, deveria exigir a responsabilidade de alguém que vai verificar o projeto como um todo e a própria obra. O Poder Público tem que organizar esse mundo todo. A fiscalização deveria ficar dentro de sua competência. Vejo hoje os órgãos responsáveis pela engenharia mais interessados em arredar muitas taxas e anuidades exorbitantes, e com muita eficiência, do que pensar em unir as duas engenharias com laços sólidos. Não é fácil, eu sei, mas já é hora de se pensar mais seriamente sobre o assunto. Por outro lado, enquanto isso não chega, aconselho aos leigos, quando se virem prejudicados por alguma obra que lhes possa trazer transtornos e prejuízos, que entrem imediatamente na Justiça, solicitando produção antecipada de provas ou mesmo o seu embargo. Por enquanto, esse é o caminho mais viável para se resguardarem. Colegas, vamos nos unir para que a engenharia brasileira seja uma só, e confiável, como sempre foi.
