*Para Mario Quintana, em memória
Ultimamente estou inebriado pelas palavras de Mario Quintana, o meu poeta favorito, como já disse até mesmo em algumas das minhas poesias. Ele morreu em 1994, quando eu ainda tinha (levando em consideração que ele nasceu em julho, e eu, em outubro) 2 anos e 7 meses de idade. Eu não tive a oportunidade de conhecer o Quintana em vida, como inúmeros outros poetas que eu conheço, mas conheci as suas palavras, e isso já faz com que eu me sinta íntimo dele, como um neto, se assim posso dizer. Ele está na cabeceira da minha cama e, sempre antes de dormir, deixo-me tomar por suas poesias grandiosas, encharcadas de sensibilidade e de não manipulação de sentimentos.
Na verdade, Mario Quintana me encanta, pois ele é o protótipo perfeito do verdadeiro poeta: aquele que não se preocupa com rimas e que, com pouquíssimas palavras, consegue atingir uma profundidade insuperável, dando um banho em muitos sonetistas que rodeiam em rimas e versos heróicos, sem nenhum ou com pouquíssimo sentimento, e acabam caindo no mesmo beco onde começaram.
Ando lendo Quintana em todo lugar: na minha granja, antes de começar o filme no sagrado cinema de todo fim de semana com a namorada, no ônibus, no banco do carona do carro, ao som de Bob Dylan, declamando poesias dele no telefone para a namorada…
Mario Quintana inicia o seu poema O silêncio escrevendo que há um grande silêncio que está sempre à escuta. Gente, esse verso é de uma profundidade! Que sensibilidade aguçada esse homem tinha. Eu o admiro muito por isso, por essa excitabilidade poética.
Quando achamos que ninguém está nos ouvindo, o silêncio está lá, ao nosso lado, como um verdadeiro camarada, de orelhas em pé, atento a tudo o que falamos. Atualmente estou assim, calado, fazendo do silêncio o meu psicanalista, contando a ele todos os meus medos e inseguranças, justamente porque, como irá escrever Quintana na última estrofe do poema, o silêncio nos ouve enquanto falamos e cala. Por esse motivo, sou fascinado pelo silêncio, o melhor confidente para os nossos segredos. Quem sabe escutá-lo vê o mundo com outros olhos; vê o mundo com serenidade.
Nesse exato momento em que eu estou escrevendo esta crônica, tenho ao meu lado o seu livro Esconderijos do tempo – surrado de tanto manuseá-lo -, que foi publicado pela primeira vez em 1980. Tomo o livro nas mãos e abro-o como quem abre aqueles livrinhos de sabedoria. Os livros do Quintana são ótimos pra isso. Suas palavras sinceras possuem as águas cristalinas que me confortam. Seus versos são sinceros, porque são livres e enaltecem o meu espírito por isso. O que será que Quintana vai me dizer nesta noite?
Deparo-me com um de seus maravilhosos poemas: Seiscentos e sessenta e seis. Sim, Mario! Apesar de eu ainda ser novo, já fiz cada burrada… desperdicei algumas penalidades máximas, fiz pessoas que amo sofrerem… Se me dessem outra oportunidade eu seguiria sempre em frente, jamais olharia para o relógio, esses objetos que eu adoro e acho elegante. E como eu sempre digo: viveria o momento e me esqueceria do futuro, pois o mais belo futuro é o segundo seguinte.
