Quando pensar em perdoar alguém, pense em você mesmo. Não estabeleça regras ou normas, apenas perdoe e esqueça. Esquecendo, livra-se do pesado fardo da dor. Os ombros sentem o peso da angústia de cada dia, hora e minuto remoer o mal infringido por outro. Deixe para lá, trabalhe as emoções para que tudo não vá além da experiência do crescimento e em hipótese alguma permita ou alimente a capacidade de gerar vingança ou revanche. O revanchismo leva à multiplicação do sofrimento como um todo, podendo ser acrescido pela dor do arrependimento, este que bate à nossa porta sempre que tomamos atitudes impensadas ou apenas ouvimos a voz dos instintos primários.
Ser grande não é ocupar o espaço mais importante aqui ou acolá: é ser superior quanto à inferioridade alheia, não se deixando tocar pelos atos, gestos e emoções destrutivas que nos rondam pelas ruas, casas e pelos escritórios. Estar no mundo sem ser do mundo não é uma pressuposição sectária, é prudência.
Ciclicamente, a humanidade é conduzida ao culto de um determinado modismo. Seja qual for, sempre houve este movimento. Uma grande onda de suposta verdade ou maneira de conduta que arrasta mar adentro para, em seguida, despojar nas areias poluídas os restos de vidas. O consolo: é quando regado pelo arrependimento dos tempos vividos pelos instintos, dizemos… Naquele tempo era assim.
Viva e deixe que os outros vivam. Olhe para o interior de si mesmo buscando o que há de ser renovado, empenhe-se nesta empreitada restauradora, busque intensamente os sentimentos duradouros. Quem sabe, inicie por cultivar o exercício do perdão num simples pedido de desculpa; ao sofrer um tropeço na calçada repleta, aceite com um sorriso. O aparente pequeno gesto de sorrir para um estranho que nunca mais o verá mudará todo o ambiente emocional em redor. Desculpe-se sempre, mesmo que não peçam desculpas, siga adiante semeando hoje calma, amanhã, serenidade, e, no futuro, a paz.
Tudo que vivemos, sentimos e pensamos involuntariamente fica registrado em nossa memória. O cérebro guarda em muitos arquivos, mas há aquele que mais utilizamos que é chamado de memória de uso contínuo. Aí, armazenamos as emoções mais recorrentes. Como se fosse uma cidade, com suas ruas e seus bairros. De alguns lugares nem sabemos a localização, de outros conhecemos cada pedaço em detalhe. E justo nesta rua mais íntima é que guardamos as lembranças daqueles fatos e pessoas que nos magoaram. Quanto mais revidamos, mais próximos nos tornamos do agressor. Então, por exercício de sobrevivência sadia e evolutiva, devemos trabalhar para fazer a mudança desse elemento importuno, tirá-lo do convívio cotidiano da vizinhança próxima para outra mais distante, esquecendo lenta e gradativamente o fato e o personagem, vamos transferindo-o para recantos distantes os quais só conhecemos de ouvir falar. O esquecimento é um forte aditivo estimulante para o perdão, e este nos aproxima do Cristo, pois perdão é luz na alma de quem perdoa.
