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O que é ser professor?

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O que é ser professor nos nossos tempos? É estranho escrever sobre esse tema, porque mexe com sentimentos meus, mas que, de alguma forma, vejo espelhados em meus colegas de profissão: um mal-estar, um sentimento de impotência, uma não realização no trabalho, não por não ser esta a profissão desejada, mas exatamente, e subjetivamente, por ser.

De repente, o mundo nos é apresentado em uma das nossas muitas salas de aula, com seus sintomas de insanidade, descuido, desesperança, desamparo e violência. Frente aos alunos, que nos olham, a princípio, desconfiados, depois, esperançosos e, por fim, jocosos, nos postamos com a responsabilidade a nós imposta pela profissão, pelo Estado e pelas famílias: eduquem essas crianças.

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Tem algo muito errado nisso. Eu não aguento e questiono essas obrigações, impostas a mim e a outros colegas. A escola não é a panaceia para os problemas sociais que vivemos. A modernidade e sua crise devem ser resolvidas por todos, de forma coletiva. Ainda que o Estado abastecesse a escola com todos os recursos, ela, sozinha, não os resolveria. Para além das questões educacionais, precisamos pensar nos paradigmas que regem hoje nossa sociedade: será que sobre o mesmo padrão do ter, e não do ser, conseguiremos avançar? Conseguiremos construir uma escola cidadã?

São coisas demais nas nossas costas. Podem analisar os índices. Não preciso de uma pesquisa para saber que o professorado está adoecendo, adoecendo de tristeza, de impotência frente a tantas funções e às frustrações geradas por elas. Nossa prática pedagógica fica à mercê de condições que não nos propiciam um desempenho eficaz, quando nos propiciam algum desempenho. Não é falta só de estrutura física, mas de estrutura psicológica, de formação continuada, que nos permita mediar nossa prática de educadores com instrumental teórico que fale de nossa contemporaneidade aliada aos saberes construídos ao longo do tempo.

Nossas relações profissionais e pessoais estão sendo abaladas pela avalanche de sofrimento impregnada no ambiente escolar. O olhar sem brilho de uma criança é muito pesado para que eu deixe pra trás, ao fechar a porta da sala de aula. E o olhar sem brilho, por vezes ranheta, culpando as vítimas do processo de deterioração da sociedade (os alunos), de alguns colegas ao chegarem à sala de professores é também muito pesado para que eu deixe pra trás, ao sair da escola.

Não pretendo, aqui, falar em nome de uma categoria que tem sido muito digna em continuar, falo por mim. Sei de exemplos importantes que buscam reverter este estado de coisas. Mas isso deve ser articulado como política de Estado, com investimento e planejamento de médio e longo prazo.

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Sinto que a categoria precisa de ajuda, e não vai adiantar nenhum projeto mirabolante para os problemas da educação pública no país se não olharmos com carinho e disposição real para valorizar a carreira docente. Somos nós que fazemos os projetos acontecerem.

Mas, voltando à pergunta inicial, em minha opinião, meio doente, ser professor é absorver e apreender do mundo o que há de mais belo e feio, é mediar a esperança e aprender, sempre aprender.

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