O cenário é conhecido: um ponto de ônibus qualquer da cidade às cinco horas da tarde num dia de semana. Pessoas se amontoam nas paradas, por vezes sem proteção nos dias de chuva, e disputam um lugar bom para a entrada quando o coletivo chegar e, entre acotoveladas e trancos, todos dão um passinho para trás. É propício que discussões e mobilizações sobre os preços de passagens de ônibus estejam se levantando em todo o país, mas é alarmante que os juiz-foranos se coloquem como espectadores desse tema. Durante os protestos de (poucos) juiz-foranos contra os últimos aumentos, abusivos, da passagem de ônibus da cidade, o posicionamento dos cidadãos era de certa apatia, assim como uma falta de apoio aos motoristas e trocadores, que são submetidos a rotinas extenuantes de trabalho e salários péssimos.
Não adianta reduzir o problema do transporte coletivo da cidade ao excesso de carros particulares ou à ausência da licitação para as empresas de ônibus. O caminho da simplificação do debate é mais fácil do que encarar a situação com tudo que ela exige, e Juiz de Fora insiste em esperar no ponto as soluções mágicas da licitação.
Esquecendo o apagão que o Poder Público parece adotar como defesa da própria falta de ação, pensemos: quantas são as linhas de ônibus que passam pelas avenidas Rio Branco, Getúlio Vargas e Presidente Itamar Franco diariamente? Quantas linhas se articulam entre os bairros? A proposta de articulação regional e descentralização das linhas só não funciona em Juiz de Fora? Como são determinados os horários e a quantidade de ônibus? Qual é o estímulo que se dá à utilização de bicicletas ou outros meios de transporte? Quem são os interessados em que se continue com o atual sistema?
São comuns os relatos, por exemplo, de estudantes que são diariamente hostilizados em linhas entre o Centro e a UFJF por moradores dos bairros de algumas linhas. Acontece que os moradores destes bairros até têm razão de reclamar da lotação e frequência dos veículos, porém, não podem fechar os olhos para perceber: o outro usuário não é culpado pelos horários da linha, de hora em hora, da passagem cara, do estado caótico dos ônibus e dos pontos. Isso se cobra das empresas e da administração pública, pois de nada adianta se opor às lutas e manifestações de estudantes e trabalhadores quando do aumento da taxa ou de greves. Devemos lembrar diariamente que a luta é de todos, mas não contra todos.
