Em políticas públicas e medicina, existe uma imensidão de mazelas a ser combatida. Para isto, muitas vezes, usa-se o causador como cura – veneno como antídoto – e a radiação que causa câncer como terapia salvadora – repressão policial (violência controlada) contra violência urbana. Na medicina, os efeitos colaterais são tratados com medicamentos, dietas ou alteração na quantidade/periodicidade da aplicação. Assim também, a violência policial, ao ultrapassar os limites do bom-senso, é tratada pelo Poder Judiciário.
Alguns tratamentos, apesar de confiáveis e efetivos, têm que ser precedidos de procedimentos que evitem reações indesejáveis, mas, na emergência, o profissional deve pesar o custo/benefício e posteriormente procurar amenizar tais efeitos.
Analisando políticas públicas, temos a Bolsa Família, usada para combater a pobreza, a desigualdade e o analfabetismo, e que, diga-se de passagem, tem dado bons resultados quanto à mobilidade social. Por um lado, o programa melhora a distribuição de renda e leva muitos estudantes ao banco escolar, o que é louvável, pois a educação é um dos pilares no achatamento das desigualdades sociais. Por outro, pode trazer transtornos para as escolas públicas e os professores. Nos primeiros contatos, é previsível um embate entre aqueles alunos que aprenderam a evitar o menino de rua e aquele estudante, extremamente pobre, que só conhece a violência como arma contra a rejeição dos mais ricos (ou menos pobres). Para receberem estas crianças, carentes de cidadania e acostumadas com a violência das ruas, onde só os mais fortes sobrevivem, as escolas, os profissionais da área e a comunidade deveriam ter sido preparados com antecedência – melhoria na estrutura física das escolas, especialização didática, pedagógica e psicológica dos professores e acompanhamento psíquico-social aos pais dessas crianças. Como tal não ocorreu, cabe ao próprio Poder Público amenizar essa violência, não criada, mas, talvez, majorada por estes problemas.
Faz-se necessário, principalmente porque tardio, que o Poder Público convoque um grande mutirão nacional – uma guerra onde só haja vencedores -, uma união permanente de pais, alunos, profissionais da área, sociedade e poderes constituídos para um trabalho de inclusão/pacificação nas escolas e comunidades, para que não se percam os frutos desta poderosa ferramenta de inclusão social que é o programa Bolsa Família.
