A dimensão espiritual do homem excede qualquer tentativa de redução empírica, pois o sujeito não pode ser tratado apenas como objeto quantificável. A ciência descreve fenômenos, correlações e processos naturais, mas não alcança o núcleo interior onde o homem se reconhece como inteligência, que vê o sentido, e liberdade, que tem o poder de escolher o bem. O espírito não é mera função cerebral, mas consciência capaz de refletir o mundo e sobre si mesma.
Nesse nível, explicar já não basta, porque explicar é sempre objetivar, medir ou reduzir a causas externas; todavia, o espírito é experiência de presença viva. Compreender o espírito exige interioridade, pois ele só se revela no movimento de autorreflexão, quando o eu retorna a si mesmo como fonte de seus próprios atos. Essa volta consciente é o que a tradição descreve como “reditio ad se ipsum”, expressão que indica o poder singular de o homem ser sujeito de si mesmo e de estar presente a si mesmo.
Esse retorno não é físico, mas existencial e intelectual, onde o eu se percebe como eu e não como mera coisa entre coisas. Assim, há no homem uma dimensão que não se capta por instrumentos, mas por vivência, silêncio, escuta e profundidade. A espiritualidade não se define como sentimentalidade ou crença vaga, mas como o lugar mais elevado da realidade humana, onde se decidem valor, amor, verdade, sentido e responsabilidade. Reduzir o homem ao mensurável seria mutilar seu mistério e sua dignidade, pois tudo o que há de mais nobre em nós nasce dessa fonte interior.
A razão científica é indispensável e fecunda, mas não possui o monopólio da verdade, porque a totalidade do real não cabe em um único método. O homem é simultaneamente corpo, vida, consciência, história, relação, transcendência e sentido. Por isso, compreender o ser humano requer integrar ciência, filosofia e sabedoria, distinguindo campos, mas sem separá-los em oposição estéril. A irredutibilidade espiritual resguarda o valor da pessoa e impede que ela seja reduzida a função. Somente quando o homem se reconhece como espírito pode assumir seu destino livre, criador e responsável, encontrando o caminho para viver com verdade e amor real.
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