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Nem Omissão, Nem Fanatismo

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À medida que o cenário pré-eleitoral se desenha, renova-se no horizonte o dever cívico do voto e a urgência de refletirmos sobre o papel dos cristãos leigos na vida pública. Em meio ao desgaste das instituições e ao bombardeio diário de notícias, o eleitor se vê frequentemente pressionado entre duas posturas extremas e prejudiciais à democracia: a tentação do absenteísmo – traduzida pelo desinteresse e pelo abandono da política – e a armadilha do maniqueísmo, que reduz o debate a uma cruzada bíblica entre o bem e o mal.

Para combater a primeira tendência, a reedição do caderno Encantar a Política surge como um sopro de lucidez profética. O documento resgata o ensinamento do Papa Francisco na Fratelli Tutti, lembrando que a política, quando praticada em sua essência de busca pelo bem comum e justiça social, é uma das formas mais elevadas da caridade cristã. Afastar-se do acompanhamento do cenário político ou votar sem consciência crítica não é demonstração de pureza espiritual, mas sim omissão diante dos sofrimentos dos mais vulneráveis, que dependem diretamente das políticas públicas e da gestão da coisa pública.

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Por outro lado, o desencantamento encontra terreno fértil nos recorrentes escândalos de corrupção e negociatas institucionais – a exemplo das recentes controvérsias envolvendo operações financeiras do Banco Master -, que abalam a confiança na máquina pública, no Legislativo e até no Judiciário. É nesse ambiente de descrédito que se fortalece a armadilha de moralizar a disputa e dividi-la entre ‘abençoados’ e ‘inimigos’. O próprio Jesus denunciou com veemência a hipocrisia daqueles que limpam apenas o exterior do copo enquanto o interior segue cheio de exploração (Mt 23, 25).

Como alerta o teólogo Ronilso Pacheco, diretor-executivo do Instituto de Estudos da Religião (Iser), a cooptação da fé para a disputa eleitoral transforma figuras públicas em personificações do bem divinamente escolhidas. Essa manobra esvazia o debate programático e cega o eleitor para a fiscalização necessária dos atos de governantes, independentemente do espectro ideológico.  Superar esse duplo risco exige discernimento maduro.

As orientações da CNBB e da tradição social da Igreja convergem para a urgência da formação de consciência: o voto deve ser compreendido como um compromisso com propostas que promovam a dignidade humana, a justiça e a proteção dos necessitados. Da mesma forma, os alertas do Iser nos convocam a rejeitar mesianismos políticos e a instrumentalização da fé. A verdadeira política não busca o triunfo do “nosso lado”, mas a construção de uma sociedade justa, onde o diálogo substitua o fundamentalismo e a cidadania seja vivida em sua plenitude ética e solidária.

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