Diante dos últimos acontecimentos noticiados, cabe a pergunta: estamos realmente vivendo em condições que não escolhemos (em alusão a Karl Marx, quando pronunciou que as pessoas fazem história sob condições que não escolhem)? Debruçando-nos sobre a Grécia arcaica, período que compreende o mundo homérico, identificamos a construção de um modelo de comportamento, sobretudo para o cidadão, baseado na coragem, na obediência, nas leis, na atenção ao equilíbrio e ao bom-senso e na participação dos assuntos de interesse coletivo.
A cidade – originária da polis, do demos, do oikos, do gnos – ganha impulso no desenrolar do mundo feudal, multiplicando as relações entre os homens, quaisquer que sejam as práticas citadinas. Estrutura-se com o grande surto industrial do século XVIII. Já na contemporaneidade, oferece a garantia indispensável para a realização e difusão da consciência social; afirmam que o homem é um ser da cidade, um ser racional, politizado, por conseguinte, da lei.
Se assim entendemos, então, estaremos parafraseando Herbert Marcuse: a subjugação efetiva dos instintos mediante controles repressivos não é imposta pela natureza, mas pelo homem. A sociedade, criadora de símbolos/conceitos/significados, está estabelecida entre aquilo que é aceitável/compartilhado/dignificado, ou, como pontuou Barthes, o mito acabou por viver uma vida própria, a meio caminho entre a razão e a fé. Fora dela, da sociedade, como observou Aristóteles, um ser solitário só pode ser um anjo ou uma fera.
Aceitando tais prerrogativas enquanto derradeiras, então estaremos diante de uma dualidade: somos/estamos controlados/controlando pelo poder difuso aquilo que julgamos ser aceitável/compartilhado/dignificado? Subjugamos e somos subjugados? Não há liberdade? Estamos realmente vivendo em condições que não escolhemos? – novamente, em alusão a Karl Marx.
Estamos mais ocupados em falar do que em ouvir, mais individualistas, mais egoístas, mais imediatistas, propensos a relacionamentos verticalizados mantenedores da individualidade, pois os relacionamentos horizontais requerem unir forças e ficar lado a lado. Assim, enquanto caminhamos para a supraindividualidade, não percebemos estar em rota de colisão com a barbárie da qual durante séculos tentamos nos afastar. Não percebemos que estamos construindo uma sociedade desorientada e desvirtuada, baseada no consumismo, a par da pobreza intelectual da grande massa que se aboleta frente aos televisores, alimentando-se de vaidade, hipocrisia e morbidez; uma sociedade contemporânea licenciosamente permissiva nos prazeres fáceis, no sexo, no alcoolismo, nas drogas; manietada ao retorno bem próximo à estupidez e idiotice, relegando o saber a um nível inferior e aplaudindo, de pé, o senso comum.
Sob outro prisma, pergunta-se: até quando o estado democrático de direito dormitará frente ao infortúnio das anomalias vexatórias produzidas por uma elite acéfala oligárquica de legisladores? Repressão e dominação fomentam cada vez mais no indivíduo uma poderosa força capaz de dividir em vez de unir: a incerteza!
