Esforçar-se pela formação do caráter; criar o intuito do esforço; respeitar acima de tudo; conter o espírito de agressão; e cultivar fidelidade ao verdadeiro caminho da razão. Estes cinco enunciados condensam o objetivo do praticante de karate-do e, tradicionalmente, devem ser falados em alta voz ao início e/ou ao fim de cada encontro de treinamento.
Não sou praticante de outras artes, entretanto, no karate há 17 anos, tive tempo de sobra para, pelo contato com outras disciplinas marciais, notar que os cinco enunciados básicos (chamados de Dojo kun; O que se ensina nesta academia em uma tradução explicativa) são compartilhados por muitas (ou todas) artes tradicionais.
O karate, além dos seus cinco Dojo kun, tem outros vinte princípios básicos, chamados de Niju (vinte) kun; entre os quais figuram, por exemplo: considere os braços e pernas do oponente como espadas; não existe ataque; não existe segundo golpe. Ou seja, tudo se trata de respeitar a capacidade de dano que o oponente pode infligir (ele é uma arma viva), evitando o combate (não existe ataque). Mas, caso ele ocorra, tudo deve ser resolvido em um único movimento, combinando defesa e contra ataque fulminante.
Arte marcial é isto: tornar-se uma arma que nunca é usada. É ser capaz de decidir o combate (que deve ser evitado a todo custo e nunca iniciado) em um único movimento defensivo e decisivo, pois quem inicia um combate provavelmente não se fará de rogado.
Por isto, um combate entre praticantes de arte marcial é sempre simulado. Acidentes ocorrem, mas não é regra que o jiu-jiteiro quebre o braço do colega no campeonato e nem que o judoca quebre o pescoço do outro em uma projeção fatal. Nas artes marciais, tudo diz respeito, no fundo, a isto: controle da força do golpe e construção do autocontrole em todos os setores da vida.
O que temos visto na mídia, perdoem-me os profissionais da área, não é arte marcial. É briga organizada. Há algumas regras, é claro. Mas elas não visam a proteger a integridade dos atletas. Procuram poupá-los da morte ou da tetraplegia.
Espero, sinceramente, que o tal lutador agressor do último fim de semana não seja um artista marcial, mas sim um brigão. Não tenho dúvidas, por sinal, de que, se discípulo de um mestre sério, será expulso da academia.
Mestres, senseis e professores de Juiz de Fora: vamos nos unir contra a barbárie e seguir em nosso trabalho sério em prol de uma cultura de paz. Oss!
