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A resposta pode estar no avesso

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Os últimos anos testemunham uma avalanche de obras voltadas exclusivamente para a autoajuda. (Nada contra) Nem contra as editoras, muito menos contra os leitores. Menos ainda contra os pobres autores que, de pobres mesmo, já não têm nada. Mas essa realidade – não só de mercado, econômica, sociológica etc. – não deixa de representar um golpe na humanidade. Sim, um golpe. Porque tanto o homem de letras quanto o matuto, instruído na ciência do dia a dia, reconhecem sua pequenez diante de um universo intocado, de um planeta em colapso, de uma mente ainda perdida, mesmo vasculhada pela psicanálise, de fato: o Ser ainda continua tão incógnito quanto as incógnitas com as quais trabalha.

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Urge então, no coração de cada um, e com tamanha ferocidade, a velha-nova carência de (re)encontrar o sentido da existência. Que sentido é esse? Será que a vida é um pêndulo que, uma vez recebendo o primeiro impulso, assume, resignadamente, a função de embalar o tempo dentro de si mesmo, enquanto permanece na condição de observador-observado? Nada mais longe de minha pretensão do que dissertar um a que seja sobre as tendências inatas do homem a ribombar suas catarses, quer no primeiro grito do passado, quer nas poesias medievais ou nos enter’s internetizados da pós-modernidade. É uma loucura pensar na vida. Esse labirinto de interditos, liberdades, buscas incessantes e clausuras. Tanta gente presa num tridimensional cósmico: 1) olhos obrigatoriamente atados ao presente; 2) mente dividida entre o passado, presente e futuro, resultando em 3) pés e mãos algemados por uma angústia tosca, ancorada na superfluidade dos desejos e caprichos.

E então, imerso num mar de lama de que é composto o caos da instabilidade existencial – se é que existe uma -, a criatura ergue os braços, na busca pelo rompimento das incertezas e inseguranças que molestam seu coração a cada segundo, faz sua prece, acende sua vela, canta sua canção de revanche contra a tristeza, faz promessas, jejuns, lamuria sua desonestidade social – e individual – e, enfim, vê se esgotar mais uma cota de sua vividez; assim, percebe a dificuldade de enxergar o que há poucos dias parecia tão nítido; o atleta sente pesar-lhe a caminhada, mesmo pequena; a luz do sol parece não ser suficiente. Mais uma vez vitórias implicam derrotas, inundações implicam aridez, e o sentido da vida permanece oculto em conceitos, dogmas, doutrinas e teorias. Não sei a resposta de muitas coisas. E muitas outras ainda permanecerão obscurecidas pela mediocridade de um espírito insolente à procura da bondade e da alegria.

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Os últimos anos testemunham um olhar exclusivamente superficialista. Na totalidade de seu desinteresse, o olhar desatento talvez nem perceba que a vida pode não estar sendo vivida do lado certo, assim como a roupa que se veste ao avesso. Quem sabe um olhar (também invertido, também avesso) inverta tantas situações de desconfortos emocionais que tanto têm invertido um mundo avesso à simplicidade, à harmonia e ao reconhecimento de que todas as coisas – apreensíveis ou não – não passam de flechas, cravadas que serão no alvo certo tão logo percebamos o quão próxima de nós está a resposta a questionamentos os mais diversos.

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