Ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo do módio, mas no velador, e assim alumia a todos os que estão na casa. De tal modo brilhe a vossa luz diante dos homens, que eles vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus (Mateus 514-16). Esta parábola, denominada Luz do mundo, refere-se à luz que ilumina uma residência. Em se tomando o exemplo e o transportando para a própria pessoa, a moradia seria alegoricamente o corpo, e a candeia, os olhos.
Como disse Leonardo da Vinci: os olhos são a janela da alma e o espelho do mundo. Janela da alma, pois os olhos expressam e transmitem as emoções e intenções. Espelho porque é através dos olhos que nos vemos e somos vistos, deixando transparecer todas as características, os gostos e as intenções. A imagem projetada é muito mais que apenas o reflexo de um corpo bem delineado na malhação diária em academias. Ver a si próprio é conhecer-se e, a partir deste conhecimento, autoavaliar-se e buscar a melhoria, sendo este um dos objetivos de nossa vida. Não sendo, tudo bem, vamos continuar nos iludindo como sempre, nas passageiras aventuras do mundo. Muitos veem no espelho apenas o reflexo do corpo. É imprescindível ver o espírito, pois nele está toda a origem do que aparentamos ser.
A cada dia mais é exigida a boa aparência, o que impulsiona um grande mercado, e muitos recursos tecnológicos surgiram permitindo avanços na correção anatômica e recuperação da autoestima. Se por um lado houve melhoria, no sentido oposto a sociedade estagnou, ou mesmo retrocedeu, colocando o candeeiro embaixo do velador no tocante ao relacionamento pessoal. A luta desenfreada na conquista de um espaço deixou de ser a busca de um lugar ao sol; não serve apenas um lugar e o sol, deve ser no mínimo nas Bahamas. Os homens e suas instituições desvirtuaram o sentido do progresso para a ganância massacrante e indiscriminada. Por isso que o Evangelho de Jesus é tão necessário como o é no momento presente.
Elevar a candeia ao velador é um ato de coragem e esforço. Pensar em si mesmo não como um agente de reforma do mundo, mas um ser espiritual, ocupando um corpo físico, caminhando em um mundo materialista para erguer-se na direção de Deus. Somente os corajosos e determinados terão bons olhos para ver o mundo como o próprio espelho. Transportar-se para fora de si mesmo e considerar-se como outra pessoa, perguntando: que pensaria eu se visse alguém fazendo o que faço? Os gregos já se preocupavam com a própria imagem espiritual, como deixaram bem claro no aforismo: conhece-te a ti mesmo.
Quem tem maus olhos não pode ter cérebro e espírito equilibrados. Se a lente de uma câmera é defeituosa, a foto também o será. É necessário cuidar do corpo, até porque ele é uma dádiva divina, mas é fundamental cuidar do espírito, pois nem só de pão vive o homem. Elevemos nossa candeia acima de nossas cabeças de modo a transformar a romagem pelo mundo em cooperação e tolerância, visto que toda criação ao nosso redor é um templo de Deus.
