A presidente adiou por três anos a entrada em vigor do malfadado (des)acordo ortográfico, para ajustar o prazo brasileiro aos dos demais países lusófonos (que ainda reagem vigorosamente às mudanças) e, talvez, para acalmar alguns exaltados, naturais dos mesmos, que, como noticiado pela mídia, vêm nos acusando de neocolonialistas, por estarmos supostamente tentando impor nossa vontade até nas regras ortográficas.
Mais lúcido e sensato é o parecer da Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado, que, em outras palavras, dá a entender que o (des)acordo tornou-se uma das tais leis brasileiras que não pegam, porque não houve debate sobre ele no âmbito da sociedade. Com efeito, essas mudanças começaram a ser implantadas, de cima para baixo, desde 1990, respaldadas apenas no achismo de seus idealizadores. Baseia-se numa lógica sem qualquer fundamento: unificar ortografias, coisa que só serve a quem edita livros; para os leitores, é muito mais interessante e culturalmente enriquecedor conhecer as peculiaridades da escrita de nosso idioma em outros países. E, muito ao contrário da reforma de 1971, estritamente brasileira, que realmente trouxe ganhos – como a supressão, em situações inúteis, dos acentos diferenciais grave (cafèzinho, pèzinho) e circunflexo (tôda/toda, nêle/nele) -, o atual (des)acordo criou excrescências, como a supressão do acento agudo no ditongo aberto éi (p. ex., ateia é flexão de atear ou feminino de ateu?) e no verbo parar (pára), o fim do trema (para as futuras gerações, o u de linguiça será mudo, como em quitar), o fim do circunflexo em dêem/crêem/lêem/vêem, e assim por diante. Quanto ao tradicionalmente confuso emprego do hífen, trocou-se seis por meia-dúzia.
Espera-se que, até 1º de janeiro de 2016 – nova data de oficialização do (des)acordo -, os outros sete países lusófonos se reúnam e nos pressionem a abolir tal diploma, como parece ser de sua vontade. Enquanto isso, melhor fará o MEC, se parar de censurar Monteiro Lobato e editar livros que ensinam a falar erradamente; e a mídia, que, se de um lado, recusa-se a publicar o horrendo presidenta, de outro, deveria parar de iniciar frases com pronomes oblíquos e de falar e escrever as milhares e as milhões de pessoas. É aqui, Camões!
