A ética e a verdade estão no centro do debate nacional. E não é para menos. O país vem sendo sacudido por atitudes nas mais diversas áreas que colocam a questão da ética e da verdade como essenciais para que o Brasil passe a limpo vícios dos tempos do autoritarismo e do compadrio político. Afinal, se o país se afirma no cenário internacional como protagonista, é preciso ter a ética como ponto fundamental.
O ensaísta, cronista, poeta e jornalista Affonso Romano de Sant’Anna tem declarado que é necessário rever o século XX, com todos os sonhos e equívocos, caso contrário, não entraremos no século XXI. Um dos intelectuais mais influentes no Brasil contemporâneo e sempre antenado com as lutas de seu tempo denunciou a ditadura militar, entre meados das décadas de 1960 e 1980, e foi uma voz indignada contra a opressão e a favor da liberdade. E tem abordado o tema Ética e verdade Brasil afora, declarando que, cada vez mais, o debate torna-se essencial. Afinal, a função do intelectual é interferir na história e no cotidiano. O escritor argumenta que o mundo tornou-se mais complexo e a cultura da pós-modernidade é o culto do superficial, da cópia, do marketing, da fragmentação, dos falsos valores. Sem medo de contestações, o escritor declara: Não sairemos dessa crise sem repensarmos os princípios básicos da modernidade e da famigerada pós-modernidade que inventou, irresponsavelmente, que não há valores éticos e estéticos, que tudo é igual a tudo.
Para Affonso Romano, a ética está em ruína no país: De cima para baixo, de baixo para cima, o mesmo desalento. E, desde os gregos, nós sabemos que a ética foi o passe para que o homem saísse da barbárie para a civilização, quando ele descobriu que tinha que respeitar o corpo, a propriedade e as ideias do outro. E ironiza: Sintomaticamente, nunca se publicou tanto livro sobre ética como agora. Em meio à violência nos grandes centros urbanos, o poeta vislumbra de sua janela no Rio de Janeiro as contradições da cidade partida e o desencanto com o abismo social no Brasil. Enfático, denuncia: Todo mundo sabe que as soluções são várias e têm que ser empreendidas sistemicamente. Portanto, não é falta de diagnóstico. Falta é ação, falta é coragem, falta uma visão global do assunto.
Sobre a questão da participação e do compromisso social e político, a partir de sua experiência em cerca de 50 anos de convivência com a literatura brasileira, Affonso Romano afirma que o compromisso é ético e estético, mais que político. Eu nunca fui de partido algum. E, no entanto, tudo que faço está prenhe disto. Nos anos 1960, quando criamos o Centro Popular de Cultura por todo o país e estávamos movidos pela revolução cubana, fazia-se uma arte engajada. Eu sempre guardei uma certa independência, mesmo participando, evitando cair no proselitismo puro e simples. E assim foi, enfrentando a ditadura de 1964 – 1984 com poemas como Que país é este? e outros. Tudo isto era participação, estava exercendo a questão do compromisso. Enfático, assegura categórico: Não há como fugir, o escritor é um ser histórico e, querendo ou não, interage com seu meio.
