Considero que devemos ler este episódio histórico da renúncia papal à luz do ensinamento do Concílio Vaticano II sobre o valor da consciência de que é o núcleo secretíssimo e o sacrário do homem, onde ele está sozinho com Deus e onde ressoa sua voz (Concílio Vaticano II: GS n° 16). Sabe-se que o amado e admirável Papa Bento XVI examinou a voz de sua consciência e pôde constatar, diante de Deus, que sua fragilidade física já o impede de continuar a árdua missão de apascentar o rebanho, isto é, de conduzir os fiéis para a verdade que liberta (João 8,32). Nenhum católico pode esquecer que se deve compreender as atitudes de um Papa à luz da fé, e não apenas à luz da razão. O Papa renuncia em prol do bem da Igreja, e sua atitude é um ato de humildade diante de um mundo que muitas vezes idolatra o poder.
Neste momento, também deve-se reconhecer e respeitar o valor das leis canônicas que, no passado, foram aprovadas pelo Magistério supremo da Igreja com sabedoria, prudência e equilíbrio. Portanto, o Papa se comportou em conformidade com a legislação canônica que assim estabelece: Se acontecer que o Romano Pontífice renuncie a seu múnus, para a validade se requer que a renúncia seja livremente feita e devidamente manifestada, mas não que seja aceita por alguém (Código de Direito Canônico, cânon 332 § 2).
De acordo com a convicção do Santo Padre, quando um Papa chega à clara consciência de já não se encontrar em condições físicas, mentais e espirituais de exercer o encargo que lhe foi confiado, então tem o direito e, em algumas circunstâncias, também o dever de pedir demissão (Papa Bento XVI, no livro A luz do mundo, página 48).
Considerando que a renúncia papal é um ato incomum ao longo da história bimilenar do papado, pode-se compreender um certo espanto inicial diante desta renúncia. Contudo, deve-se considerar que o modo de exercer o ministério petrino foi se modificando ao longo da história. Nos séculos passados, um Papa quase não viajava, e a agenda papal era menos extenuante. Hoje, por exemplo, a Santa Sé mantém relações diplomáticas com 179 países, e, consequentemente, isso leva um Papa a receber, quase diariamente, inúmeras autoridades mundiais que o visitam. Além disso, existem os pesados compromissos religiosos próprios da função papal (homilias, discursos, elaboração de documentos, audiências públicas, etc). Pode-se então compreender a dificuldade do Papa, de quase 86 anos, para exercer bem e adequadamente o pontificado. Portanto, esta renúncia nos fala de uma responsabilidade pastoral que visa ao bem da Igreja.
Quem será o novo Papa? Trata-se de uma pergunta que nos remete aos misteriosos desígnios de Deus. Mas nós, católicos, confiamos nas promessas de Cristo de nunca abandonar a sua Igreja. A fé católica, dom de Deus, é sempre inabalável e, portanto, prevalecerá, apesar das incertezas humanas do momento.
